Novembro 11, 2009

Lampa

Um dos números recentes da revista polaca lampa é decidado à nowa proza portugalska po Rewolucji Gozdzików, que é como quem diz, à nova prosa portuguesa pós-Revolução dos Cravos. A escolha é relativamente equilibrada (mesmo que algumas apostas sejam em autores que já tinham obra feita antes de 74) e heterogénea, apresentando o trabalho de João Aguiar, Agustina Bessa-Luís, Mário de Carvalho, Rodrigo Guedes de Carvalho, Mário Cláudio, Almeida Faria, Lídia Jorge, valter hugo mãe, João de Melo, José Luís Peixoto, Jacinto Lucas Pires, José Saramago, David Soares e Gonçalo M. Tavares. Para além destes autores, participam ainda José Carlos Fernandes & Luís Henriques, João Mascarenhas e Pedro Burgos & João Paulo Cotrim, fornecendo uma amostra da actual banda desenhada portuguesa.

lampa

(Agradecimentos ao Pedro Moura, que me emprestou um exemplar da revista)

Novembro 9, 2009

O Muro caíu há 20 anos

muro

(e no Arrastão, há emissão contínua dedicada à efeméride)

Novembro 9, 2009

Leituras

Respigado por Peter Robins, no blog de livros do Guardian, um texto de Susan Sontag sobre Claude Lévi-Straus, publicado na New York Review of Books, em 1963.

Novembro 7, 2009

Assírio & Alvim no Chiado

LivrosAss_rio

A partir das 19h00 de hoje, e até ao dia 31 de Dezembro de 2009, livros, livros e mais livros no Chiado. Livros mais baratos, livros esgotados, livros impossíveis de encontrar, livros de artista, livros de tiragem limitada, e ainda, postais, cartazes e outras surpresas. Um novo projecto temporário da Assírio & Alvim no Chiado, desta vez na Rua do Carmo, 35, loja 12 (antiga Bolsera). De segunda a sexta-feira das 12h00 às 19h00, e ao sábado das 10h00 às 19h00.

Novembro 6, 2009

Novidades Antígona

securedownload

William Blake, Milton (tradução, introdução e notas de Manuel Portela).
Nas livrarias a partir de 20 de Novembro.

Novembro 5, 2009

Ler no Chiado

Daqui a nada:

AF_LER_no_Chiado_Novembro_net

Novembro 5, 2009

Dois anos de Trama

Já se preparam as comemorações do segundo aniversário da Trama. Vejam o programa completo aqui e vão pensando na melhor forma de dar os parabéns aos responsáveis.

Novembro 3, 2009

Novembro aziago

Há meses assim, capazes de levarem de uma só vez tantas pessoas que admiramos. Nos últimos dias, as notícias da morte de Alda Merini, António Sérgio, Francisco Ayala e Claude Lévi-Strauss estiveram nas páginas dos jornais. É como diz Miguel Esteves Cardoso, a propósito da morte de António Sérgio, na crónica de hoje, no Público:

Que jornal; que revista; que estação de rádio estão vocês a fazer aí no pós-vida? Não lá em cima, no céu, mas aqui ao lado, paralelamente, no after, no depois, no enquanto estamos a dormir e a viver.
A morte de tanta gente boa faz-me acreditar que, quando cada um de nós morrer, seremos bem recebidos. Haverá bons inéditos; bons jornais; boa música; bom cinema. Imaginem só Bach, Wagner, John Lennon, Ian Curtis, Stockhausen – e, para apreciar e descobrir o resultado, António Sérgio
.

Novembro 3, 2009

Magazine Littéraire

magazlitNov

O número de Novembro já circula pelas livrarias e quiosques habituais. Sumário disponível aqui.

Novembro 2, 2009

Prémio Goncourt

Marie Ndiaye é a vencedora do Prémio Goncourt deste ano, com o romance Trois Femmes Puissantes (Gallimard). Brevemente, o livro será editado em Portugal pela Teorema.

Novembro 2, 2009

Leituras: John Cheever

No Guardian, Geoff Dyer escreve sobre John Cheever e a recente edição dos seus The Journals. Para ler aqui

Outubro 31, 2009

Visitas no Cadeirão

É a terceira visita de Pedro Moura a este Cadeirão, e é provável que não seja a última. Desta vez, o pretexto é Caim, de José Saramago (Editorial Caminho). Aqui fica o texto:

José Saramago - Caim

Dois pontos de partida óbvios. Não fosse este livro escrito por Saramago, teria sido votado à total indiferença. Não ostentasse a sua visão Saramago como o faz, e a sua recepção teria sido relativamente pacífica. A suposta controvérsia (“suposta” pois esta discussão sobre a “verdade”, o “valor”, a “historicidade” dos escritos bíblicos não é de todo nova, mas dá-se apartada do público mais amplo, levando a consequentes mal-entendidos), obviamente, cobre-se de toda esta exposição dado o facto de se tratar de um escritor da envergadura política e mediática de Saramago. Existem outros livros que procuram polemizar de um modo mais directo, mas que não obtiveram a mesma exposição, logo, o mesmo grau de discussão (se é que se poderá chamar discussão a um mero “bate-boca”, sem argumentos e balanços, dos envolvidos).

Houve leitores (e alguns deles, meta-leitores) que acusaram Saramago de não conhecer bem a Bíblia, de não a ter lido bem. Isso depreende que existe a possibilidade de uma “leitura correcta”, cuja exactidão é naturalmente falsa dada a sua própria história convoluta enquanto texto. Acusar Saramago de “ignorância e presunção” é um exercício idêntico, cego à “ignorância e presunção” de se ser detentor dessa interpretação que, se foi “verdade única” durante os séculos de dogmatismo e poder religioso, foi-se dissipando com os primeiros passos dos protestantes, das traduções para as línguas vernaculares (a magnífica versão do Eclesiastes de Damião de Góis é um desses marcos reluzentes), e da disciplina fundada por Schleiermacher. Se tomarmos apenas atenção às discussões tidas nos meios de comunicação social mais visitados, notar-se-á apenas numa imagem que se espelha de um passado: clericalistas e jacobinos sobrevivendo, cada vez mais entricheirados nas suas posições intolerantes. Quando os defensores da Bíblia espumam por Saramago se referir à Bíblia como um “livro de disparates”, “de crueldades”, “de maus costumes”, contrapondo com a “sua verdadeira dimensão”, esquecem-se de que esta atitude de tolerância, de democratização e laicização dos dogmas da Igreja é um fenómeno muito recente, e levado a cabo a contragosto da parte do poder central eclesiástico. A opressão a todas as frentes foi real e palpável, e é contra isso que Saramago se rebela, e as respostas dos detractores revelam a verdadeira cabeça da intolerância dos clérigos, e de um eurodeputado inenarrável, face à discussão. O que importa, porém, de um ponto de vista crítico literário, é compulsar que rebeldia é a que Saramago cumpre. A seu modo – débil, linear – mas é ela quem importa interrogar.

A Bíblia foi já submetida a todo o tipo de escrutínio, desde os mais sérios mas jamais completos estudos que a lêem enquanto texto circunstancial de um tempo e de um espaço, composto por elementos que emergem numa cultura determinada, outros que vogam e se consolidam de formas variadas, passando por todos os requintes de uma evolução filológica de uma complexidade extrema que cada passo e descoberta arqueológica vem sempre complexificar (como se entende pelos recentes estudos de James D. Tabor, por exemplo, ou a revista Bíblica, da Difusora Bíblica). São anos, décadas, séculos de interpretação destes episódios, das versões, de comentários (no mundo judaico, a Midrash e o Talmude). Mas por alguma razão, nenhum desses factos, dessas conclusões, desses estudos, por menos controversos que possam ser – o modo de funcionamento dos sucessivos concílios e as suas decisões dogmáticas, as volutas das traduções e corruptelas sobre as línguas originais da Bíblia que levariam a ideias empedernidas, todo o processo das canonizações, as responsabilidades repartidas por Paulo e Tiago/Pedro em duas perspectivas concorrentes da natureza de Cristo e a sua relação para com o mundo judeu e o restante, etc. – são alvo de discussão pública, de exposição, de matéria de cultura. Assim, todas e quaisquer relações com os textos em si e a sua dimensão histórica são relegadas a uma espécie de canal menos público, de elitismo intelectual, de caminho espartilhado: sendo difícil ao leigo (todos, enfim) separar o trigo do joio, a investigação cuidada da última alucinação conspiracional. E aqueles que melhor sabem disso são os próprios teólogos, como Tolentino Mendonça, cuja tese publicada, A construção de Jesus, aponta às formas de construção dessa “personagem” que é o Cristo. É deles, portanto, a responsabilidade de tornar essa palavra mais comum.

Não obstante, e independentemente do que Saramago terá lido e estudado ou não, essa pesquisa não se reflecte no romance em si. Não é de estranhar que um escritor do cariz de Robert Graves procure insuflar nos seus romances, e penso em Rei Jesus em particular, todos e quaisquer conhecimentos que tenha da civilização do seu protagonista, para a criação da verossimilhança possível, uma construção daquela verdade, uma sustentação da teoria ou versão que pretende ofertar aos seus leitores. Saramago não segue essa estratégia, nem sequer uma leitura etimológica, uma leitura das versões mais antigas e comentadas do livro do Génesis, que lhe pudesse ofertar uma pista interpretativa, uma fabricação mais coesa do texto bíblico, perdendo-se antes em interpretações superficiais e rápidas dos episódios que cita. Esperar-se-ia uma gotícula de inteligência ou de súbita intuição para que os episódios debatidos se reescrevessem sob a nossa leitura. Das frentes hermenêuticas possíveis, a literal, a a alegórica, a moral e a anagógica (que visa os sentidos místicos ou espirituais), Saramago fica-se pelo primeiro, apelando (como se viu no seu debate com o Padre Carreira das Neves) para a sua “não compreensão”. Poderemos aceitar que um escritor se debata com aquilo que não compreende não sabendo devolver a angústia humana que isso implicaria, e antes apresentar essa incompreensão como a sua própria fortaleza? “simples repetidores de histórias antigas que somos, passando continuamente da credulidade mais ingénua ao cepticismo mais resoluto” (escreve-se na página 107). Eis o busílis: Saramago é movido por uma tese, não procurando que esta seja uma ferramenta ao seu labor literário, mas o verdadeiro veículo e impulso, que acaba por atropelar a própria ideia de escrita possível.

Essa literalidade expressa-se de dois modos no romance. Por um lado, o desejo de se ver como a “instrutiva e definitiva história de caim” (pg. 15), por outro, confessando: “Este nosso relato, embora não tendo nada de histórico, demonstra a que ponto estavam equivocados ou eram mal-intencionados os ditos historiadores”. Ou seja, pretende também escrever-se como verdade.

Na economia narrativa do romance, o autor opta por um mecanismo de relativa simplicidade, permitindo a Caim atravessar os “quadros” da Bíblia como que por magia, seguindo um sendeiro que não obedece a quaisquer trâmites temporais ou geográficos, apenas proporcionando à personagem a capacidade de visitar episódios famosos. Se utilizo a palavra “quadro”, é porque essa viagem assemelhar-se-á à travessia de uma personagem em duas dimensões num mundo de duas dimensões: a travessia de cada espaço é imediata, absolutamente concreta, delineada no solo e nos céus como se delimitada por uma moldura. É como se estivéssemos a observar uma ilustração de Caim ganhando vida numa Bíblia ilustrada, e ela se passeasse pelas vinhetas das outras páginas. Todavia, eis outra faceta de fraqueza. Os episódios eleitos são aqueles relativamente conhecidos: a expulsão de Adão e Eva do Paraíso (antes de Caim intervir, naturalmente), Babel, Noé e a Arca e depois a sua bebedeira e obscenidade face ao filho, a queda das muralhas de Jericó, o riso de Sara, Abraão e Isaac, a queda de Sodoma e Gomorra, Lot e as filhas, e uma mescla com Lilith, Noah, Enoch…

Há toda uma bateria de livros que reenquadram as histórias “ocultas” da Bíblia (ou que têm uma dimensão mais sórdida), alguns dos quais dariam origem a um álbum dos The Residents, Wormwood: Curious Stories from the Bible. Essa é uma possível antologia das histórias reunidas na Bíblia sob a perspectiva crítica de não vermos nela uma plataforma de lindos contos morais e exemplos, mas sim, o tal “livro de crueldades” (pouco diferente nesse sentido dos contos coligidos por Perrault, por exemplo; aliás, uma das formas de olharmos para os livros da Bíblia é o de uma espécie de romanceiro, de depositório de histórias, cujo manancial não parece ter fim). Mais, as canções elaboradas pelos The Residents acentuam o carácter de admonição terrorista que é possível extrair desses escritos. “Kill him!” (“Mata-o!”), é a palavra do Senhor e título da canção sobre a ordem de Deus sobre Abraão.

Não haveria fim se listássemos os livros que procuram sublinhar as contradições destes livros (“Bíblia” é uma palavra plural, sublinhando a proveniência e natureza heterogénea do que compila), as suas obscenidades e atrocidades, os seus “contos” esquecidos… Citemos dois, para já: Outrageous Tales from the Old Testament, uma antologia de banda desenhada que adapta literalmente as palavras dos mais antigos livros, tornando visível a violência, a intriga, a natureza atroz das relações de Deus com os seus, chegando mesmo a tornar-se divertida (negramente, claro está) a adaptação do Levítico 20, cujas leis levam “à pedrada” por isto e aquilo, por Alan Moore e Hunt Emerson, ou o pequeno volume compilado por José Tavares, Roteiro da Bíblia (Crise Luxuosa). Caim não segue nenhum destes caminhos, mas uma atitude menos moldada.

Continuemos. Peter Weiss, em Marat/Sade, faz emergir uma acidez mais contornada. Rachel Pollack, num conto simples sobre José no Egipto, aponta uma ideia que dá que pensar sobre a hipótese de Deus ser um irmão mais novo (o que espelhará a preferência de Deus pelos irmãos mais novos, acentuando a natureza do episódio de Caim e Abel). Terry Pratchett e Neil Gaiman, em Good Omens/Bons Augúrios, desdobram a hipótese de um humor sem fim em torno do Apocalipse. O mesmo Gaiman, num conto brevíssimo, invertendo a história do Génesis, um mero jogo literário, quase inócuo, acaba por reescrever o programa de Deus. E poderíamos continuar, falando de Nikos Kazantzaki, Thomas Mann, George Moore, Roger Caillois, etc. E o território da banda desenhada está cheio de exemplos em que as possíveis interpretações, relações e facetas de Deus são exploradas, escrutinadas e demolidas. Se os crentes, supostamente tolerantes, assumem estas posições em relação a Saramago, que sucederia se tivessem conhecimento de uma série como Preacher, de Garth Ennis e Steve Dillon, a qual termina de um modo, a uma só vez, hilariante, violentíssimo e, para alguns, de um sacrilégio inominável? Em quase 200 páginas, Saramago opta por simplesmente carpir as “inocentes crianças de sodoma que o fogo divino calcinou”. Patético.

Porque não escolheu Saramago explorar episódios mais obscuros, mas que sem dúvida trariam à luz as relações que ele desejava que se tornassem claras? Poderia ter citado o estranhíssimo episódio, verdadeiro conto etiológico da circuncisão, da raiva de Deus contra Moisés, que leva Séfora a esfregar o sangue do pénis de um dos intervenientes nas pernas do mesmo ou de outro (Êxodo 4: 24 e seguintes; apesar das traduções portuguesas, nunca é claro de quem sangra, e quem recebe o sangue nas pernas, se Deus, se Moisés, se o seu filho recém-nascido); a violação de Dina por Siquém e a subsequente chacina dos súbditos daquele príncipe de uma forma traiçoeira terrível (Génesis 34); o maravilhoso episódio de Balaão, a sua jumenta e o anjo (Números 22:21-35); Débora a furar as têmporas de Barac com um prego de tenda (Juízes 4-5); ou Judite cortando a cabeça a Holofernes (Livro de Judite), que daria origem a tantos belíssimos quadros, inclusive o “negro” de Goya na Quinta del Sordo; o também atroz sacrifício da filha de Jefté de Guilead, em nome da sua vitória face aos amonitas (Juízes 11:29-40); já para não falar de todas aquelas palavras que, dos Salmos ao horrendo Levítico, incitam ao assassínio, à intolerância, ao ódio racial, à destruição implacável dos inimigos (quando, agora mesmo, José Rodrigues dos Santos, com o seu novo romance, Fúria Divina; aponta para o facto do Corão possuir “60%” de incitação à guerra, e contrapõe a mensagem anti-belicista de Jesus, escamoteia toda a história do Judaísmo e do Cristianismo, assim como o longo e doloroso processo de laicização da Europa, e ainda algumas das palavras de Jesus: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada”, em Mateus 10:34; mesmo com interpretações místicas, será difícil distorcer a dicotomia clara e contraditória dessa frase). Que razão a esta preterência? Por serem mais obscuros? De uma interpretação mais blindada?

A opção é sua, e livre, mas haveria uma outra responsabilidade ou expectativa: a de que um romance contemporâneo procurasse iluminar (ou obscurecer, para dar a ver melhor os contornos, como diz Bergson) esses episódios conhecidos, e os desse a ver sob uma nova perspectiva, que os desse a ver de novo pela primeira vez. Neste caso em particular, que procurasse re-iluminar a potencialidade religiosa das relações entre aquelas figuras e a ideia de Deus (mesmo aquela que é formada por um ateu). Não é isso que acontece. Opta-se por uma mera apresentação dos factos, esperando que o leitor concorde com a superficial violência e arrogância e egoísmo de Deus no episódio. Ou pior, mune-se apenas dos instrumentos da diatribe entre a figura central, o fantasma de Deus e suas igrejas.

Em The Book of J, o crítico literário Harold Bloom e o poeta David Rosenberg recriam o que possivelmente constituiu a primeira camada dos escritos bíblicos, do século X antes da Era Comum, o chamado “J strand” (J de Jeová, apesar desta palavra ser uma corruptela), entendido como um escrito pleno de uma espécie particular de ironia, “dramática” ou “trágica”, que constitui “a incongruência entre o que se desenrola num drama ou narrativa e o efeito do que se desenvolve nas palavras e acções adjacentes, a qual é compreendida em maior medida pelos espectadores e leitores do que pelas personagens”. Deus, ou YHWH, surge como uma personagem mimada, irrascível, insuportável, e as relações com as mulheres e com os irmãos, mais velhos ou mais novos, tornam-se por demais claras. Merecedor mesmo de uma justiça que ainda não foi cumprida, não obstante Nietzche ou Guerra Junqueiro (“Causa-me horror o Deus sanguinolento e fúnebre que separou o homem da natureza”), não obstante os constantes estudos e “revelações chocantes” sobre a história da(s) religião(ões), ou o gatilho do Santo dos Assassinos (de Preacher). Bloom sublinha a criatividade individual de J, demonstrando como Deus é uma personagem literária, como “a mais estranha familiar (uncanniest) das metáforas ocidentais”. Esta personagem, ou um seu espelho possível, não aparece em Caim. Quando Saramago intui o lado caprichoso de Deus na criação do Universo e no seu descanso eterno após os seis dias de labor, porque se perde nos meandros da mera anedota, da piada, em vez de construir então esse Deus à luz dos deuses gregos, crianças caprichosas, cheias de falhas, birrentas, cujas características se assemelham ao YWHW de alguns dos livros do Pentateuco? Ficamo-nos por uma breve apresentação de papelão: “Deus nunca poderia ser mau ou não seria deus, para mau temos o diabo, O que não pode ser bom é um deus que dá ordem a um pai para que mate e queime na fogueira o seu próprio filho só para provar a sua fé, isso nem o mais maligno dos denónios o mandaria fazer” (pg. 136). É curioso que Saramago, nas suas discussões (sobretudo aquela citada com Carreira das Neves), se abstenha da interpretação e faça leituras literais e lineares de todos os escritos, chegando mesmo a perguntar “quem é que vos [a Igreja] autorizou a mudar o que está escrito e a sobrepor-lhe outra coisa?”. Será para levar a sério tal questão?

Creio que teria sido mais “útil”, se me é permitida tal palavra no campo literário, uma bomba ao retardador, uma desobedienciazinha subtil, um pequeno desvio disfarçado, do que este desfraldar a olhos vistos o pavilhão de uma dissidência que brada essa mesma natureza. É tão óbvia que perde eficiência. E até nos remete à ideia de que Saramago, sendo anti-eclesiástico, é no fundo um “temente a Deus” que desejaria uma pureza relacional com a ideia de Deus. Emerge, portanto, somente a qualidade panfletária. “Abençoados sejam os que escolheram a sedição porque será deles o reino da terra” (reza-se na página 38). Necessária? Sem dúvida, neste tempo de recrudescimento de intolerâncias, de tempo de antena a afirmações bacocas e estúpidas dos padres (sobre temas que ultrapassam a circunferência dos seus poderes), da transformação e aproveitamente publicitário das estrelas e festivais de rock da religião Católica (a vinda do Papa, Fátima). Todas e quaisquer religiões (se vos for mais cómodo acrescentar “organizadas”, bom proveito) têm uma dimensão abjecta: a hierarquia, as castas, a resignação, os dogmas, a lei na pedra, o direito “natural”. Impedimentos de um desenvolvimento totalmente livre do humano. Importa explorar essa abjecção para a expor e, tentativa, dolorosa e paulatinamente transformá-la, mesmo aboli-la. A reacção votada a este romance é traço do atraso de que ainda padecemos. Boa literatura? A questão fica em aberto.

Não estamos perante a inventabilidade fresca da linguagem e a variação temática de um Levantado do Chão, nem o aproveitamento de fontes históricas para a recriação operática de Memorial do Convento, nem sequer o humor de Objecto Quase, ou o requinte de reflexão literária para a refundição de um homem de O ano da morte de Ricardo Reis. Encontra-se em Caim uma espécie de mistura entre cansaço e pressa que já havia sido anunciada desde há um punhado de romances, outras frentes escritas, frases soltas. Se em alguns aspectos Saramago adopta, ou adoptou, o dispositivo da “corrente de consciência”, ela não ganha nele, e em ainda em menor grau neste romance, aquela qualidade musical de fluido constante, de ritornello, de especificação de uma observação passada, de uma inflexão dos pormenores que compõe o plano de composição que descobrimos em Woolf ou Jorge de Sena.

A inventabilidade de Saramago, ele próprio a defendeu bastas vezes, quando afirma que o “povo” não fala com pontos de exclamação nem parágrafos. É certo, mas tampouco com letras ou vírgulas. O que poderia ser uma exploração por uma voz exacta acabou por se tornar um espartilho, uma mania, um instrumento sem cadências. O “estilo” conhecido de Saramago, fórmula relativamente feliz de textualizar por escrito o melífluo contínuo de um diálogo em stacatto composto de interlocutores inteligentes, entregues e em acordo por esse mesmo princípio dialogante, acaba por servir, de quando em vez, de má ferramenta, já que faz reemergir essas mesmas qualidades nas personagens, mesmo quando elas não o pareceriam poder conquistar. Um Caim é um Ricardo é um José é um Baltasar é um João. Que o pode ser, pode, e é apanágio da liberdade literária. Que leva a uma impressão de pobreza na variedade criativa, imaginativa, e humana, também. As personagens de Saramago, independentemente das tramas, dos eventos pelos quais têm de passar (usualmente um qualquer tipo de opressão de uma fonte externa), são sempre homens e mulheres que caminham, ou desejam caminhar, de queixo erguido com soberba, orgulho, liberdade. Uma bandeira, portanto, mas não o contorno de personagens que ultrapassem essa condição. Caim, personagem, é desenhado de um modo ainda mais bidimensional que os demais. Ele é apenas um elemento panfletário, e pouco mais.

A escrita de Saramago é a de uma fuga em frente. Não escava um sentido pressentido, nem explora o alcance de um conceito ou de um acontecimento esboçado, contentando-se com uma mera fórmula que se deseja a si mesma. Engendra citações auto-formuladas, prêt-a-porter, dando continuidade à catadupa da linearidade narrativa. O humor do narrador e da voz autoral, que passa pelo desarranjo mecânico na asa do anjo, as anacronias das palavras, e as subsequentes desculpas, são um tanto ou quanto juvenis, satisfeitas com as suas próprias trouvailles, quer impedindo que sejam verdadeiras presenças de humor constante quer desviando as forças que as cenas interrompidas por ele pudessem sequer ter.

Se aquele livro, a Bíblia, de acordo com o escritor, é um livro de ficções, porque não criar novas ficções? Caim não é uma delas.

(Pedro Vieira de Moura)

Outubro 30, 2009

Caim em Lisboa

Mais logo, na Culturgest:

saramago_o_caderno_final

Outubro 28, 2009

Coisas que ficaram por escrever

Na agitação de noites sem dormir e de trabalho infindável que têm sido as últimas semanas, algumas coisas ficaram sem o devido registo. A principal: a morte de Mercedes Sosa, no dia 4 de Outubro. Toda a gente guarda o seu punhado de referências, transportando-as entre a juventude e o que quer que se vá seguindo, e Mercedes Sosa faz parte desse meu punhado. A primeira vez que a vi e ouvi foi num documentário sobre a Argentina, não consigo precisar se na televisão ou se num vídeo que alguém terá emprestado à minha irmã, mas lembro-me da aparição daquela mulher imensa no ecrã e lembro de o mundo ter parado durante alguns segundos quando ela começou a cantar. A música era Solo Le Pido a Diós e, no palco partilhado com León Gieco, Mercedes Sosa cantava aquilo que me parecia a essência de qualquer coisa que eu própria queria encontrar. Seguiu-se a descoberta de alguns discos, a respectiva gravação para k7, para melhor me chegar tudo aos ouvidos via walkman, e mais tarde um ou dois cd’s. No ano que vivi em Santiago de Compostela, Mercedes Sosa cantou no Auditório de Galicia e eu, estúpida, burra, completamente idiota, não fui ao concerto porque estava com um bocadinho de febre, graças a uma das habituais chuvadas compostelanas, e achei que poderia ver um concerto mais tarde, ali ou noutro sítio. Claro que essa oportunidade não voltou a surgir e agora é demasiado tarde para pensar nisso. La Negra morreu e eu levarei as suas palavras e a sua voz por diante, como muitos, imagino, no meu punhado pessoal de referências para a vida.

No mesmo dia em que Mercedes Sosa partia, Luís Sepúlveda completava sessenta anos. Ontem, quando troquei meia dúzia de palavras com ele, não fui capaz de dizer-lhe que um livro seu me salvou a vida, num certo sentido. Pareceu-me ridículo dizer isso a um autor, que não me conhece de parte alguma e que seguramente terá outros interesses que não a minha vida. O livro era Patagónia Express e não é pela literatura que o guardo entre os meus livros mais preciosos. Às vezes, muito poucas vezes, a literatura é uma coisa com pouca importância perante a fragilidade dos dias.

patagonia

Outubro 28, 2009

Alexandra Lucas Coelho, Caderno Afegão, Tinta da China

afegao

Muito do que sabemos sobre os cenários de guerra deve-se aos jornalistas que, escrevendo ou captando imagens, arriscam a vida para testemunharem aquilo que o resto do mundo prefere manter ao longe. Pode parecer conversa hagiográfica, mas não há outro modo de o dizer. Acompanhando há vários anos a situação no Médio Oriente, Alexandra Lucas Coelho reúne neste livro as suas notas sobre o Afeganistão, onde esteve entre Maio e Junho do ano passado. Alguns textos saíram no jornal Público, mas uma parte considerável do que aqui se lê não só não foi publicado como se permite um discurso menos balizado pelos interesses jornalísticos (sem nunca se afastar da sua ética), e mais próximo do registo pessoal.

O resultado é uma amplitude de temas e modos de os ver que supera o que habitualmente chega aos jornais, e um privilégio para o leitor, que pode acompanhar os passos que conduzem a uma das reportagens que terá lido: contactos, fontes, modos de deslocação por entre um território em guerra, pessoas que se conhecem acidentalmente e que acabam por ser uma espécie de milagre por entre o caos. Os temas incluem a contextualização do conflito, as opiniões de civis, a cobertura da guerra, mas também a situação das mulheres, a assistência médica, os modos de sobrevivência, o contraste entre a herança cultural do Afeganistão e o seu presente devastado. E o quotidiano, esse inexplicável respirar que prossegue indiferente aos tiros, os homens que vendem refrescos, as crianças que nadam no rio, os sonhos que todos persistem em alimentar, desde a deputada Fauzia Kufi, que recebe toda a gente que com ela queira falar, até Yaqub, o jornalista cuja missão, tão nobre, é a de “contar o que acontece”.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Time Out, nº, Out. 09)

Outubro 26, 2009

AIA – Artes, Ideias, Academia

aia

Outubro 26, 2009

Poesia de Ana Luísa Amaral

Na quarta-feira, pelas 18h30, a Biblioteca Almeida Garrett (Porto) recebe a apresentação do livro Se Fosse Um Intervalo, de Ana Luísa Amaral (Dom Quixote). Isabel Allegro de Magalhães apresentará a obra e Paulo Eduardo Carvalho e a autora do livro lerão alguns poemas.

Outubro 24, 2009

Zeina Abirached, Mourir, Partir, Revenir. Le Jeu des Hirondelles, Cambourakis

hirondelles

Nascida no Líbano, em 1981, Zeina Abirached tem desenvolvido o seu trabalho em torno da matéria autobiográfica, reconstruindo memórias de infância numa Beirute dividida pela guerra. No seu terceiro livro, as memórias reportam a 1984 e às dificuldades enfrentadas pelos habitantes da capital libanesa no seu dia a dia. O quotidiano é, aliás, o ponto de vista a partir do qual se estrutura esta narrativa, que abre com uma belíssima sequência de vinhetas onde se mostram as adaptações criadas pelos habitantes do bairro de Zeina de modo a evitarem que as suas casas resultem em danos colaterais.

Quando os pais saem de casa para visitar a avó materna, Zeina, a narradora, e o seu irmão ficam aos cuidados de uma amiga da família, entretidos com jogos como se nada se passasse. Lá fora, o percurso mais seguro entre as duas casas (ilustrado por duas pranchas onde os símbolos cartográficos reduzem a informação ao essencial, recorrendo aos elementos infográficos que marcam presença em todo o livro) torna-se impraticável pela presença de um franco-atirador, e a espera de Zeina e do irmão inicia uma contagem sufocante. Chegam vizinhos e amigos, fugindo dos tiros e teimando em manter uma rotina de normalidade por entre os assobios dos obuses. Bebe-se café e whisky, salvo de um restaurante destruído, joga-se, recitam-se excertos do Cyrano de Bergerac, guarda-se a esperança. E ao longo da espera, a narrativa vai fazendo desfilar as histórias das personagens: Chucri, o taxista perito em esquemas de sobrevivência, Ernest, que perdeu o irmão gémeo na guerra, Linda, antiga Miss Líbano, Khaled, o dono do restaurante destruído. E também Farah e Ramzi, o casal que aguarda um visto para emigrar, esgotada a esperança de viver pacificamente em Beirute.

Focada a partir do olhar da criança que era Zeina, a narrativa de Le Jeu des Hirondelles resgata da guerra o quotidiano possível, equilibrado entre a persistência resignada e a consciência da precariedade, como nota a avó de Zeina, ao telefone: “Penso que apesar de tudo, estamos, talvez, mais ou menos seguros aqui”.

A comparação com Persépolis, de Marjane Satrappi, surgida em algumas criticas, diz mais sobre uma leitura limitada do que sobre qualquer das obras. Partilhando o preto e branco e alguma iconografia, pouco mais une as memórias épicas de Satrapi e a sua narrativa do Irão às memórias quotidianas de Zeina enquanto a história lhe desfila à porta da infância. Mas talvez a boa recepção junto do grande público as possa unir de modo mais lógico.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado no Actual, do Expresso, Out.09)

Outubro 24, 2009

Ligar a televisão

Daqui a pouco, pelas 21h30, a RTP2 transmite um documentário de André Godinho sobre Manuel Hermínio Monteiro.

Outubro 23, 2009

Livros em movimento perpétuo

No Guardian, Suzanne Munshower faz o elogio do livro impresso e traça as inúmeras possibilidades do seu perpétuo movimento. Para ler aqui.