
Publicado em 1979 e considerado a obra essencial de McCarthy, Sutree acompanha o quotidiano da personagem homónima, um pescador que vive à beira do rio Tenesse, depois de ter abandonado a sua vida anterior. Com escassos contactos com a família, Suttree mantém-se em Knoxville e o seu quotidiano é agora marcado pelas presenças de habitantes igualmente arredados daquilo que seria, nos EUA do início dos anos cinquenta, uma vida bem sucedida: bêbedos, criminosos, vagabundos e muitos negros a braços com uma sociedade racista. E depois há Harrogate, um jovem campónio que Suttree conhece na casa de correcção por onde passou e que desagua em Knoxville em busca de oportunidades que só existem na sua ingénua cabeça.
Para lá da acção que estrutura a narrativa, Suttree alimenta-se sobretudo da reflexão, incessante e por vezes caótica, sobre a contínua rotação do mundo. Seguir essa reflexão exige do leitor disponibilidade para esgravatar, de preferência com as mãos nuas, na terra como no lixo, enfrentando os vermes, percebendo que as águas fétidas do Tenesse tanto podem esconder pérolas como a sua miragem, servindo de casa de banho com a mesma lógica com que servem de local de baptismo. Suttree é apenas um dos elementos que compõem a peculiar cosmogonia de McCarthy, que coloca estrelas, árvores e seres vivos no mesmo plano existencial dos esgotos, do lixo, das vísceras, tudo confluindo numa só respiração e unido pelo imparável curso do rio. E é através de Suttree que acedemos a essa complexa visão, uma mitologia própria que alimenta os gestos e os rituais primordiais, com as diferenças trazidas pelo ‘desenvolvimento civilizacional’ a serem apenas pequenas actualizações na existência quotidiana.
Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Time Out, nº80, 8 Abr. 09)