
Muito do que sabemos sobre os cenários de guerra deve-se aos jornalistas que, escrevendo ou captando imagens, arriscam a vida para testemunharem aquilo que o resto do mundo prefere manter ao longe. Pode parecer conversa hagiográfica, mas não há outro modo de o dizer. Acompanhando há vários anos a situação no Médio Oriente, Alexandra Lucas Coelho reúne neste livro as suas notas sobre o Afeganistão, onde esteve entre Maio e Junho do ano passado. Alguns textos saíram no jornal Público, mas uma parte considerável do que aqui se lê não só não foi publicado como se permite um discurso menos balizado pelos interesses jornalísticos (sem nunca se afastar da sua ética), e mais próximo do registo pessoal.
O resultado é uma amplitude de temas e modos de os ver que supera o que habitualmente chega aos jornais, e um privilégio para o leitor, que pode acompanhar os passos que conduzem a uma das reportagens que terá lido: contactos, fontes, modos de deslocação por entre um território em guerra, pessoas que se conhecem acidentalmente e que acabam por ser uma espécie de milagre por entre o caos. Os temas incluem a contextualização do conflito, as opiniões de civis, a cobertura da guerra, mas também a situação das mulheres, a assistência médica, os modos de sobrevivência, o contraste entre a herança cultural do Afeganistão e o seu presente devastado. E o quotidiano, esse inexplicável respirar que prossegue indiferente aos tiros, os homens que vendem refrescos, as crianças que nadam no rio, os sonhos que todos persistem em alimentar, desde a deputada Fauzia Kufi, que recebe toda a gente que com ela queira falar, até Yaqub, o jornalista cuja missão, tão nobre, é a de “contar o que acontece”.
Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Time Out, nº, Out. 09)