Na agitação de noites sem dormir e de trabalho infindável que têm sido as últimas semanas, algumas coisas ficaram sem o devido registo. A principal: a morte de Mercedes Sosa, no dia 4 de Outubro. Toda a gente guarda o seu punhado de referências, transportando-as entre a juventude e o que quer que se vá seguindo, e Mercedes Sosa faz parte desse meu punhado. A primeira vez que a vi e ouvi foi num documentário sobre a Argentina, não consigo precisar se na televisão ou se num vídeo que alguém terá emprestado à minha irmã, mas lembro-me da aparição daquela mulher imensa no ecrã e lembro de o mundo ter parado durante alguns segundos quando ela começou a cantar. A música era Solo Le Pido a Diós e, no palco partilhado com León Gieco, Mercedes Sosa cantava aquilo que me parecia a essência de qualquer coisa que eu própria queria encontrar. Seguiu-se a descoberta de alguns discos, a respectiva gravação para k7, para melhor me chegar tudo aos ouvidos via walkman, e mais tarde um ou dois cd’s. No ano que vivi em Santiago de Compostela, Mercedes Sosa cantou no Auditório de Galicia e eu, estúpida, burra, completamente idiota, não fui ao concerto porque estava com um bocadinho de febre, graças a uma das habituais chuvadas compostelanas, e achei que poderia ver um concerto mais tarde, ali ou noutro sítio. Claro que essa oportunidade não voltou a surgir e agora é demasiado tarde para pensar nisso. La Negra morreu e eu levarei as suas palavras e a sua voz por diante, como muitos, imagino, no meu punhado pessoal de referências para a vida.
No mesmo dia em que Mercedes Sosa partia, Luís Sepúlveda completava sessenta anos. Ontem, quando troquei meia dúzia de palavras com ele, não fui capaz de dizer-lhe que um livro seu me salvou a vida, num certo sentido. Pareceu-me ridículo dizer isso a um autor, que não me conhece de parte alguma e que seguramente terá outros interesses que não a minha vida. O livro era Patagónia Express e não é pela literatura que o guardo entre os meus livros mais preciosos. Às vezes, muito poucas vezes, a literatura é uma coisa com pouca importância perante a fragilidade dos dias.

6 Comentários
Outubro 29, 2009 ás 12:32 AM
Era um pequeno documentário, ainda em VHS, sobre a música como arma de intervenção política na Argentina. A maioria do material era retirado de um espectáculo onde actuava a Mercedes Sosa e os Bersuit Vergarabat – como sempre, de pijama – cantavam “O tempo não pára” – do pelo Cazuza.
Outubro 29, 2009 ás 12:45 AM
Li este texto e acho que fez a melhor homenagem a que um escritor pode aspirar. Penso que o Luis Sepúlveda gostaria de ler este seu texto. Amanhã vou estar com ele e dar-lho-ei a ler.
Outubro 29, 2009 ás 2:43 AM
Está explicado, Pedro. E até imagino que foste tu que o emprestaste… Já não me lembrava bem dessa parte.
Outubro 29, 2009 ás 2:50 AM
Maria, a ideia intimida-me seriamente… É muito diferente estar perante um livro ou perante um escritor, e agrada-me mais a primeira hipótese.
Outubro 29, 2009 ás 1:51 PM
Sara, tenho a certeza de que um escritor como o Sepúlveda daria muito valor a alguém que lhe dissesse que um livro seu lhe salvou a vida, seja em que sentido seja. As oportunidades repetem-se, grande parte das vezes. Não deixes para a próxima.
Outubro 29, 2009 ás 4:27 PM
eu tinha isto em vhs…