“E depois chegaram os homens de Ellecom. Foram levados directamente para o hospital; sentei-me à beira das suas camas, abismada, e devo dizer que ainda não compreendo como é possível as pessoas maltratarem-se umas às outras desta forma e haver quem ainda consiga contar aquilo por que passou.” (p.71)
“A Europa está, toda ela, a ser gradualmente transformada num grande campo de concentração. Toda a Europa passará por esta mesma amarga experiência. Registar, simplesmente, os factos nus e crus de famílias separadas, de posses e liberdades roubadas tornar-se-ia monótono. Tão-pouco é possível falar de forma pitoresca sobre arame farpado e batatas cozidas com legumes aos do lado de fora. Aliás, pergunto-me se restarão muitos deste lado, se a História continuar a seguir o rumo que tomou.” (p.79
“Ah, sabem, este é um pedacinho de História da humanidade tão terrivelmente triste e vergonhoso que não sabemos como falar dele. Sentimo-nos envergonhados por o havermos testemunhado e termos sido incapazes de evitá-lo.” (p.92)
Etty Hillesum, Cartas 1941-1943, Assírio & Alvim. Nos sessenta e cinco anos da libertação do campo da morte de Auschwitz.