Por agora Lucas ainda só enfiou o saco a tiracolo, correu até à estação do comboio de Massamá-Barcarena e saiu do dito na Amadora, à hora prevista, num país de risos escarninhos e desconfianças mordazes este transporte suburbano vai ser digno de confiança, não está tudo perdido, atenção à distância entre a plataforma e a carruagem, a ladainha do costume, e no cais João que já o abraça e que força um roçagar de lábios, perante a indiferença, perante a indiferença generalizada dos magotes de gente à volta, gente ansiosa por largar o transporte e rumar a casa, ao supermercado, aos afazeres que se sucedem ao longo do dia como aquelas barreiras das pistas de tartan que é preciso ultrapassar a galope, apanhar o puto na creche (hop) comprar os legumes para a sopa no sítio do costume (hop) pôr a máquina a lavar logo que o tambor esteja cheio, a ver se se poupa na luz e água (hop), não há muito tempo, sequer muita disponibilidade para reparar num quase-beijo dado por dois homens, um iniciar de quase-romance, excepção feita ao cacho de pretos que passa a tarde encostado aos apoios de acesso à passagem subterrânea, são miúdos, mandam bocas, tudo normal,
«larga o osso, paneleiro»
João finge não reparar, Lucas nem se apercebe, sente-se confuso, planta-se-lhe um zumbido no ouvido que não há-de passar tão cedo, em meia-dúzia de passos estão à porta do tal café, há-os às centenas por essa Cidade, por esses subúrbios fora, com toldos e esplanadas patrocinados por refrigerantes, copos de cerveja oferecidos por fornecedores, superfícies espelhadas e o constante manípulo a soltar as borras da água benta nacional.
Última Paragem, Massamá, de Pedro Vieira, com edição da Quetzal, chega às livrarias no próximo dia 25 de Fevereiro.
