Não sei se a presença de obras fundamentais nas livrarias é um dos índices definidores do grau de civilização de um país, mas se não é, devia ser. Nesse índice, Portugal teria pontos tão baixos, sobretudo em relação à sua própria produção cultural, que nem os senhores da troika saberiam que medidas de austeridade propor para corrigir a situação (isto, claro, se os senhores da troika tivessem como função ajudar os países que visitam, em vez de arranjarem formas de aumentar as dívidas e enterrar para muitas décadas qualquer esperança económica, mas agora já me estou a dispersar…). Uma dessas obras fundamentais andava há muito arredada dos escaparates das livrarias, quase sempre cheios de néons e novidades que hã-de ser o último grito durante, vá lá, uns três dias, até serem substituídas pelo último grito seguinte, numa sucessão de gritaria que acaba por ensurdecer quem procura livros mesmo, mesmo relevantes. Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro, acaba de ser reeditado pela Letra Livre, e se isto não for uma notícia capaz de provocar um êxodo assinalável até à Calçada do Combro, em Lisboa, ou até às livrarias que costumam receber os livros editados pela Letra Livre, então o melhor é baixarmos os braços e entregarmos a alma ao FMI.
