Manuel Jorge Marmelo Uma Mentira Mil Vezes Repetida Quetzal
Escrever a partir das infinitas ligações meta-literárias, da ideia dos livros dentro dos livros e da contaminação entre a literatura e aquilo que se acredita ser a realidade é um gesto arriscado. Para além do peso esmagador do sempre citado Borges, há Vila-Matas, há Cortázar e há o fenómeno Bolaño, para só referir alguns. Consciente do facto, Manuel Jorge Marmelo assume o pastiche desde a primeira página e com ele ergue uma narrativa poderosa onde os meandros meta-literários são, afinal, uma forma eficaz de pensar a intolerância.
A história do homem que queria ser famoso, e que para isso inventou um livro que nunca existiu, passeando-o, comunicativo, pelos autocarros do Porto, contém as muitas histórias que confirmam o ser humano como um equilibrista da ética, umas vezes pendendo para o lado que se diz bom, outras cedendo aos instintos mais inomináveis. Que tudo isto se passe entre livros, enganos literários e devaneios sobre a nossa condição de viventes só confirma o potencial explosivo da mistura entre literatura e realidade. Começando no título, uma frase do nada recomendável Joseph Goebbels que o narrador desmonta em duas penadas, e acabando no malabarismo entre conhecer os factos, imaginar que se os conhece e inventá-los para que outros os conheçam de cor, Uma Mentira Mil Vezes Repetida é um festim de labirintos narrativos que esconde, só pelo prazer de forçar a descoberta, as reflexões sobre o mundo que nenhum telejornal permite e que a literatura guarda como melhor espelho de todos nós.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Set. 2011)
