Ana María Matute A Torre de Vigia Planeta Tradução de Sérgio Coelho
Apresentada como a primeira parte de uma trilogia de tema medieval, A Torre de Vigia é, na verdade, um livro perfeitamente autónomo, cuja publicação original remonta ao ano de 1971. A sua integração numa unidade, à qual pertencem igualmente Olvidado Rey Gudú e Aranmanoth, passa mais pelo tema medieval do que pela sequência narrativa.
O percurso do jovem que se tornará cavaleiro, e cujo nome nunca chegamos a conhecer, não é a típica história contemporânea que se socorre de meia dúzia de clichés medievais para criar um sucedâneo de romance de cavalaria. Ao contrário, A Torre de Vigia utiliza sabiamente o registo e os códigos dos romances de cavalaria originais, conferindo-lhes a densidade psicológica que podemos agradecer ao século XX, mas nunca cedendo na linearidade: aqui, não há misticismos de algibeira a quererem espreitar em cada parágrafo e levar a leitura a bom porto exige atenção às palavras e pouca distracção com o colorido das lendas ou dos mistérios celestiais. O resultado é um romance de formação onde a fantasia não é um artifício para entreter, e sim um modo de explorar os abismos que cada um guarda naquilo a que se costuma chamar alma, e onde os fracassos, a cobiça e as dúvidas que assolam cada personagem são retratados com a mesma dureza que os combates sangrentos ou os castigos que ocupam o lugar da justiça. Que tudo se passe na Idade Média, entre cavaleiros e seres monstruosos, só confirma a certeza de que a natureza humana não mudou assim tanto ao longo dos séculos.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Nov. 2011)
