ESTAÇÃO
Passam dois minutos da hora.
Estamos a sincronizar os relógios.
Como se o tempo conseguisse
fazer algo por nós. O tempo,
essa probabilidade crescente
de desastre que nos deixa inquietos
com os seus modos excêntricos.
A verdade é que o futuro imediato
é um comboio que saiu agora mesmo
da estação, alguns segundos antes
de razões ou despedidas. «Sinto muito.
A seguir», diz a senhora do guiché,
o cabelo agora branco, a mesma voz
de sempre, habituada a calafrios.
Vítor Nogueira, Modo Fácil de Copiar Uma Cidade, & etc (Lisboa, 2011, pg.37). Não sei se copiar poemas para um blog é uma boa forma de guardar intacta a memória dos que já cá não estão, mas o certo é que nunca ninguém provou que não fosse e eu não consigo pensar em nada tão eficaz como um poema.