Patrick Modiano O Horizonte Porto Editora Tradução de Isabel St. Aubyn
O horizonte pode ser poético, romântico, um óptimo pretexto para tergiversar em torno de uma qualquer ideia grandiosa, mas se há coisa que o define de modo cruel – e igualitário, estejamos nas ruínas deixadas por um tsunami ou no mais belo miradouro lisboeta – é o facto de ser inalcançável. É nesta característica que Patrick Modiano ergue a prosa de O Horizonte, colocando em cena um homem que vagueia pelo seu presente como se nunca tivesse saído do passado e uma mulher que só às vezes parece verosímil, remetendo-se, em parte considerável do texto, para a condição de fantasma.
As pontas soltas de um passado com cerca de quatro décadas são o que mais perto está de uma história, desvendando alguns traumas e os muitos segredos que envolvem as duas personagens centrais, mas onde a narrativa ganha a sua respiração mais pungente é na encenação de uma espécie de caminho para lado nenhum, mais desejado pela incapacidade de avançar do que imposto pelas circunstâncias. De tal modo que, quando um desfecho se insinua a poucas páginas do fim, já não é relevante que este homem que deambula por Paris, Annecy ou Berlim em busca do que deixou de existir consiga tocar na meta. É do caminho, mesmo que sinuoso e com efeitos especiais capazes de o prolongarem sempre mais, que aqui se fala e é o caminho que faz de O Horizonte um romance alucinante no modo como explora os efeitos da memória e exemplar na forma como sugere que o presente é sempre mais labiríntico e acidentado do que gostamos de acreditar.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, nº221, Dez. 2011)
