Henry Miller O Colosso de Maroussi Tinta da China Tradução e Raquel Mouta
Ninguém ficará surpreendido com o facto de este livro se iniciar com uma descrição da Grécia feita por uma mulher, e menos ainda com o facto de ser por causa disso que Henry Miller decide deixar Paris e embarcar na sua aventura grega. Mas o que se segue está muito longe das aventuras de cama que tornaram Miller famoso entre os que conhecem apenas uma parte do que escreveu.
Iniciada em 1939, pouco antes de deflagrar a II Guerra, a viagem que aqui se regista é desordenada, pouco planeada e construída ao sabor dos encontros, dos novos conhecidos e dos copos e comezainas que o autor vai frequentando. Instalado em casa do amigo e escritor Lawrence Durrell, Miller explora os campos gregos, as ruínas que testemunham a gloriosa herança helénica e as ruas caóticas de Atenas, mas é na comunhão com os elementos naturais e na observação desarmada dos gregos que se joga a grandeza discursiva e a revelação emocional que aqui se operam. Apontado pelo autor como o seu melhor livro, O Colosso de Maroussi é um louvor constante à terra que Miller descobre em agitada comoção, absorvendo a herança histórica e os gestos imemoriais, o túmulo de Agamenon e os pastores de cabras, a Acrópole e a ingestão da alcoólica retsina, tudo no mesmo patamar. E depois há o Colosso, epíteto atribuído a Katsimbalis, o poeta que Miller conhece através de um amigo de Durrell e que produz nele um fascínio tal que acaba por dedicar-lhe o livro da sua epifania grega, uma odisseia onde deuses e humanos bebem do mesmo copo.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Dez. 2011)
