O Intrínseco de Manolo


João Rebocho Pais
O Intrínseco de Manolo
Teorema

A estreia de João Rebocho Pais no romance faz-se em cenário alentejano, com trama universal e linguagem esmerada. No centro da narrativa, Manolo, desbravando labirintos com a ajuda de Maria, sua mulher, e a colaboração involuntária de uma mão cheia de personagens típicas de historietas de aldeia. No centro de Manolo, um remoinho – de dúvidas, memórias e gestos por realizar – e a sustentá-lo, uma azinheira que protege e aconselha.

Não vale a pena invocar a eterna herança sul-americana quando temos por cá, entre romanceiros tradicionais, românticos oitocentistas e histórias que nunca se viram escritas, tanto que herdar – e um tanto mais eficaz na explicação de referências telúricas, conversas com árvores e fantasmas que nunca nos abandonam. Mais relevante será deslindar o universal que ressoa na busca melancólica de Manolo e no contraste desta com os gestos das personagens de Cousa Vã, do boato inicial sobre a infidelidade de Maria até aos segredos cabeludos que cada um guarda como se não lhe pesassem. Entre o desvario provocado pelo boato e a revelação que o há-de atravessar, Manolo é uma espécie de herói épico sem fama nem glória, observador das vaidades do mundo, quase um anjo, não fosse o peso da carne. E se as referências históricas em tom de compêndio ou as repetições embevecidas perante a diversão escatológica ameaçam denunciar a insegurança da estreia, o trabalho da linguagem e o enfrentamento dos abismos a que chamamos alma asseguram a vontade de perceber para onde vai a escrita de Rebocho Pais.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Jul. 2012)

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