Uma Quase-Autobiografia

A curiosidade meticulosa que as revistas do social devotam a certas figuras não costuma atingir escritores, sobretudo se estes não pertencerem à categoria dos famosos-que-escrevem, ou se estiverem mortos. João Paulo Cavalcanti Filho, ex-Ministro da Justiça do Brasil, ignorou esse preceito e dedicou oito anos a dissecar o quotidiano de Fernando Pessoa até onde a documentação remanescente e os porteiros de edifícios, outrora casas pessoanas e hoje empresas ou escritórios, o permitiram. O resultado é um volume de 700 páginas que tanto ilumina a genealogia do poeta como revela pormenores mais anedóticos, como o local onde Pessoa compraria os sapatos, ou mesmo escabrosos, caso do tamanho do pénis do autor – informação deduzida a partir de elementos tão fiáveis como um comentário invejoso de António Botto e o registo de uma conversa mediúnica tida por Pessoa. Num compromisso entre a informação biográfica tradicional e uma certa especulação, Cavalcanti Filho também revela dados como as receitas gastronómicas preferidas do poeta, os pormenores dos anos passados na África do Sul ou a suposta identidade do Esteves da “Tabacaria”.

A fúria reveladora não contradiz os propósitos do volume. Logo na abertura, o autor explica ao que vem, afastando com veemência o estudo académico ou a análise literária. Na mesma introdução revela-se uma outra característica de Uma Quase-Autobiografia (Porto Editora), confirmando que o texto não será apenas abordagem pouco comum à biografia pessoana, e que rapidamente se transfigurará em estranheza plena e, a espaços, desconfortável. O autor, que assume logo no título a confusão entre o que é de Cavalcanti Filho e o que é de Pessoa, explica que escreveu “sempre que possível, tentando aproximar-me do seu [de Pessoa] jeito de escrever”, justificando essa afirmação com o número de vírgulas que utilizou em cada frase e esquecendo que talvez não baste calcular a percentagem de pontuação para alcançar semelhante patamar. Se por escrever, mesmo que só aproximadamente, do jeito de Pessoa entendermos a sobrelotação das páginas com citações do autor de Mensagem, apresentadas com aspas mas inseridas no discurso de Cavalcantti como se dele fizessem parte (e a ideia é essa: “Este livro, pois, não é o que Pessoa disse, ao tempo em que o disse; é o que quero dizer, por palavras dele. Com aspas é ele, sem aspas sou eu”), então Uma Quase-Autobiografia terá cumprido o objectivo. O resultado é que não é exactamente igual ao de um texto escrito por Pessoa, nem mesmo por quase-Pessoa, mas antes uma alucinação discursiva, como se o biógrafo se assumisse em uníssono com o biografado, o que deita por terra um certo distanciamento que costuma recomendar-se nestas coisas de registar a vida alheia.

Se a introdução é eficaz no modo de se proteger de críticas vindas da academia e dos especialistas pessoanos, não deixa de pôr a descoberto, nessa protecção, as complicações de que padece. Assumindo-se como um livro para não-iniciados e afirmando a vontade de partilhar com os leitores a pesquisa sobre as vertentes menos conhecidas da vida de Pessoa, esperar-se-ia uma biografia pensada para o grande público que vive à margem de discussões filológicas sobre a fixação dos textos pessoanos, mas que nem por isso deve ser impedido de ler livros sobre um dos expoentes maiores da literatura portuguesa. Ora, um livro com essa nobre missão talvez não seja o espaço apropriado para a apresentação, sobretudo em tom tão definitivo, de teses de cariz filológico. Não é que as biografias ou outras edições pensadas para o grande público no âmbito da divulgação tenham de esconder elementos habitualmente situados no espaço da discussão académica, mas o debate científico e o esgrimir de argumentos apoiados em documentação que podem confirmar, desmentir ou deixar em aberto certas questões não encontram aqui o seu melhor espaço. É o que acontece com os novos heterónimos anunciados por Cavalcanti. O facto de o autor apresentar uma lista de 127 heterónimos, algumas dezenas mais do que aqueles que os especialistas assumem (por exemplo, mais 55 do que os que Teresa Rita Lopes reconhece, mas o número variará em função dos diferentes estudiosos e do seu trabalho) não oferece garantias de verdade absoluta, mas também não cria espaço para uma reflexão séria. Quais são os argumentos para assumir que um nome na folha de rosto de um livro da biblioteca de Pessoa é um heterónimo? Ou um nome que aparece sem associação a texto algum? Em última análise, que critérios se assumem como necessários para a existência de um heterónimo? Este é o tipo de questões que ocupa os especialistas e o problema de Uma Quase-Autobiografia não é atrever-se a entrar nesse domínio, porque não deve haver barreiras no que toca à curiosidade e à oportunidade de saber, mas sim o facto de o fazer de modo pouco reflectido, sem argumentação sustentada e peremptoriamente. Que as pessoas que não conhecem Pessoa leiam este volume e passem a apregoar que o poeta tinha 127 heterónimos pode dizer muito sobre a eficácia promocional de um livro, mas dirá muito pouco sobre o fenómeno heteronímico em si.

Quanto aos pormenores quotidianos de Pessoa, não haja dúvidas de que Uma Quase-Autobiografia é uma fonte a ter em conta para conhecer a vida do poeta e a sociedade do seu tempo. Saber se os não-iniciados terão fôlego para atravessar 700 páginas do volume e uma quantidade avassaladora de informação sobre edições, poemas, temáticas, percursos, factos e hipóteses é o que falta descobrir para avaliar a curiosidade dos leitores sobre o fascinante mundo pessoano.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Ler, Jun. 2012)

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