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Ara, de Ana Luísa Amaral

Ara
Ana Luísa Amaral
Ara
Sextante

Ara foi apresentado como a estreia de Ana Luísa Amaral no romance, mas a leitura do livro não se faz sem os ecos que a poesia da autora já fincou anteriormente. Ou melhor, far-se-á sem esses ecos e com igual proveito por parte de quem não conheça a obra poética, mas um leitor dessa obra anterior não chegará a Ara de mãos vazias. O romance começa, aliás, com uma declaração da narradora que afasta do horizonte qualquer estrutura romanesca previamente engendrada ou a cumprir, algo que se confirmará nas costuras sempre à vista desta narrativa e na intromissão regular da poesia nas suas voltas: “Mas as coisas não giram ao nosso compasso. Eu não sou romancista. Se fosse romancista, dividia-me em nomes de ficção – e disso não sou capaz. A própria ideia de fazer uma história aterroriza-me.” Mais do que essa remissão, a frase de abertura é também o ponto prévio de um programa, uma linha de trabalho que fará da escrita território maleável, sem preocupação com fronteiras de género ou discurso e com mais vontade de questionar e experimentar os alicerces do romance enquanto conceito do que começar e acabar uma narrativa a que todos possam chamar de romance.

Apesar desta estrutura desordenada, fragmentária e tão reveladora do que podem ser os alicerces impulsivos de um romance, Ara não deixa de contar uma história, narrando em fragmentos, analepses e algumas pausas contemplativas um amor entre duas pessoas, a narradora e uma outra mulher. De certo modo, o texto deste romance é um corte no continuum temporal que vai da infância da narradora até um presente em permanente devir, recuperando momentos anteriores ao do seu eixo narrativo, mas focando-se nessa história de amor, não apenas contando os seus passos no modo possível como se pode resumir a momentos um momento maior, mas igualmente construindo caminhos para uma tentativa de análise. E se de beleza se pode ainda falar quando se escreve sobre um livro, a impossibilidade de concluir cada um desses caminhos é um dos gestos mais belos que este romance constrói, frustrado na sua acção mas esplendoroso no modo como usa a linguagem para confirmar que nem tudo a linguagem arruma.

A impossibilidade de transformar em algo mais do que quimera a relação entre as duas mulheres, fugaz no tempo que lhe é disponibilizado sem que isso lhe retire densidade ou intensidade (algo que se materializa pela escrita numa durabilidade que contamina a cronologia irrequieta da narrativa), explica-se no enredo pelo facto de ambas serem casadas e de o tempo e o contexto não permitirem outra hipótese de vida: “Mas no que aprendi, tu não cabias. Nunca coubemos no que me ensinaram. Nunca me deram matéria verbal para falar de nós – por isso me confundo e falo do que sei há tantos anos.” (pg.73). Essa impossibilidade faz da ara que dá título ao livro o altar onde todas as orações se cruzam, uma caixa de ressonância que, qual labirinto narrativo, acolhe histórias, fragmentos e futuros por cumprir, permitindo-lhes um lugar na narrativa maior sem com isso lhes garantir destino ou resolução. E talvez seja essa a natureza única das orações, o lugar exacto onde a linguagem da literatura e a devoção se encontram.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Blimunda, Janeiro 2014)

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Correntes d’Escritas 2014: o voto e a voz

“A democracia não é só ter direito a voto, é também ter direito a voz”, diz Ana Luísa Amaral. É bom não esquecer.

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Prémio António Gedeão para Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral, com o livro Vozes (Dom Quixote), é a vencedora da primeira edição do Prémio Rómulo de Carvalho/António Gedeão.

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O dom da ubiquidade

Mais logo, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, Ana Luísa Amaral lança o seu mais recente livro, Vozes (D. Quixote). A apresentação será feita por Eduardo Lourenço e haverá leitura de poemas por Filipe Leal, Luís Lucas e a própria autora.

À mesma hora, mas na Ler Devagar da Pensão Amor (Cais do Sodré), Helena Vasconcelos lança Humilhação e Glória (Quetzal), com apresentação de Irene Flunser Pimentel e Julião Sarmento.

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Correntes d’Escritas 2012: Quinta Mesa

Sexta-feira, dez da noite. A temperatura nas esplanadas junto às praias é muito convidativa e contrasta com o calor insuportável que se respira no Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, mas é o auditório que está cheio, com gente ocupando todos os pedaços livres de chão. E vieram para ouvir Afonso Cruz, Ana Luísa Amaral, Júlio Magalhães, Manuel Moya, Rui Zink e Valter Hugo Mãe, com moderação de Henrique Cayatte, falarem sobre o tema “a escrita é um investimento inesgotável no prazer”. Sobre a mesa propriamente dita quero escrever mais tarde, a partire dos apontamentos que tirei no caderno, numa posição realmente desconfortável e com vários pescoços alheios na minha linha de visão (até porque são quase quatro da manhã e daqui a nada já começa mais uma mesa), mas posso dizer que houve declarações de amor, convites à partilha de camas, histórias de suicidas capazes de despertarem muita simpatia, honestidade a toda a prova, delírios ainda por catalogar e a voz inimitável de Ana Luísa Amaral lendo um texto que ainda está por aqui a ecoar.

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Correntes d’Escritas 2011: quarta mesa

Diz-se que a poesia não costuma encher casas, mas a última mesa do dia garantiu o contrário e foi perante um auditório quase sem lugares que Ana Luísa Amaral, Carmen Yañez, Gastão Cruz, Ivo Machado e Uberto Stabile, moderados por Francisco José Viegas, recusaram o sentido imediato do verso de Paulo Teixeira, “Nua de símbolos e alusões é a poesia” (O Anel do Poço). Com uma divisão nítida entre duas posturas, a de dissecar sentidos e a de afirmar paixões, a mesa acabou por se encontrar na certeza de que o mote, assim, descontextualizado, não teria acepção possível. A não ser que, como propôs Ana Luísa Amaral, o verso fosse repontuado: “Nua. De símbolos e alusões é a poesia.”

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Hoje à tarde

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Sublinhados XXXVI

On my volcano grows the Grass
A meditative spot –
An acre for a Bird to choose
Would be the General thought –

How red the Fire rocks below–
How insecure the sod
Did I disclose
Would populate with awe my solitude.

——————————-

No meu vulcão a Erva cresce
Lugar de reflexão –
Um Acre escolhido por um Pássaro
Consideração geral –

Que intensa em baixo a Rocha em Fogo –
Que inseguro o torrão
Se o revelasse povoaria
De temor a minha solidão.

Emily Dickinson, Cem Poemas, tradução, posfácio e organização de Ana Luísa Amaral, Relógio d’Água (pg.114-115)

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Inversos, de Ana Luísa Amaral

Amanhã, pelas 18h30, na Biblioteca Almeida Garrett (Porto), Maria Irene Ramalho faz a apresentação do volume Inversos – Poesia 1990-2010, de Ana Luísa Amaral (Dom Quixote).

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Sublinhados XXXIII

PRIMEIRA IMAGEM

Numa tarde de sol,
dispôs-se no bordado e a bordar.
É que a luz da varanda era tão forte
que os olhos se detinham,
implodindo.
“Um sonho”, desejara.
E alguém, sorrindo,
lentamente afastou-se,
monte acima.

Ana Luísa Amaral, in Imagens (Campo das Letras, 2000)

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Correntes d’Escritas 2010: Primeira mesa

Sob o mote de uma frase de Agustina Bessa Luís, “Escrevo para desiludir com mérito”, juntaram-se Ana Luísa Amaral, Eduardo Pitta, Fernando J. B. Martinho, Francisco Moita Flores, Gilda Nunes Barata e Zuenir Ventura, moderados por Catherine Dumas. Entre dissecar a frase de Agustina e transpor a reflexão para a própria escrita, houve um pouco de tudo, e nem faltou alguma agitação na assistência. Zuenir Ventura protagonizou uma das intervenções que há-de ficar na memória dos que o ouviram, confessando que não gosta de escrever, porque é muito penoso (“mas gosto de ter escrito, sobretudo se ficou bem”), e que se tornou jornalista por acidente (quando era arquivista numa redacção e se voluntariou para escrever o obituário de Camus) e escritor por ordem da mulher (“O primeiro livro, escrevi porque a minha mulher mandou”).

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Poesia de Ana Luísa Amaral

Na quarta-feira, pelas 18h30, a Biblioteca Almeida Garrett (Porto) recebe a apresentação do livro Se Fosse Um Intervalo, de Ana Luísa Amaral (Dom Quixote). Isabel Allegro de Magalhães apresentará a obra e Paulo Eduardo Carvalho e a autora do livro lerão alguns poemas.

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