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Festival Literário da Madeira: Mesa 3

Antes da mesa, ouvem-se os versos do poeta grego Titos Patrikios lidos por Manuele Masini. Logo depois, Barry Wallenstein, Fernando Pinto do Amaral, Francesco Benozzo, Jaime Rocha, João Carlos Abreu e Yang Lian, moderados por Donatella Bisutti, atiram-se ao tema “Éramos violentos e não sabíamos: Como a poesia pode mudar a nossa vida”.

Barry Wallenstein não perde tempo e diz que não quer falar de liberdade, porque a palavra tende a ser mal interpretada, para além de usada como desculpa para a guerra (e o seu país bem o sabe…). Quanto à violência, acredita que não há como fugir dela e que, na poesia, um autor que tente fazê-lo descobrirá rapidamente que a violência não se compadece com tentativas de fuga, encontrando sempre o seu caminho de chegada. Sobretudo porque, nas palavras de Barry Wallenstein,  “o trabalho do poeta é, precisamente, exercer violência sobre a linguagem”.
A intervenção de João Carlos Abreu não traz nada de muito novo, andando à volta da ideia de poesia como salvação imediata, da força das palavras e do apelo à não-violência, tudo cruzado num discurso entre o pacifismo mais apagado e a ideia de poeta como interventor engagé na política e na sociedade.
Yang Lian retoma a linha de pensamento de Wallenstein, confirmando a violência como característica intrínseca na história da humanidade, mas acrescenta que a poesia é, sobretudo, um processo de questionamento. E esse questionamento, no seu caso, passa pela relação que estabelece, no seu trabalho poético, com a condição de exilado, não apenas politicamente, mas igualmente pelo afastamento da sua língua nativa, em que continua a escrever, mas agora afastado de um contacto quotidiano que definirá, sem dúvida, um outro diálogo poético.
Jaime Rocha começa por lembrar que conheceu Yang Lian há seis anos, num festival de poesia de Porto Santo, aqui ao lado: “nessa altura bebemos muito e discutimos muito sobre poesia, mas sempre sem violência”. Já no sítio onde nasceu, na Nazaré, guarda imagens fortes de uma certa violência, sobretudo associada ao luto, às mortes no mar, às mulheres vestidas de negro, e foi aí que começou a sua demanda por um modo de escrever aquela violência, sempre com a noção de que a poesia não serve para dizer o real, mas o teatro pode tentar fazê-lo.
Fernando Pinto do Amaral aceita o repto da moderadora e fala sobre a ditadura portuguesa, remetendo para o seu poema “Os idos de 60″, lido ontem à noite, e explicando que a experiência que teve nessa altura foi curta, já que o 25 de Abril se deu quando tinha treze anos. Sobre a violência na poesia, a segunda serve para a transformação da primeira, criando um segundo objecto a partir de algo que não é desejável, ainda que seja parte integrante do real. Francesco Benozzo não acredita que a poesia possa ou deva lutar contra o poder político ou a violência se não souber lutar, antes de mais, contra o cliché e a rotina verbal. E dá o exemplo de Dante, cuja grande revolução não foi a luta contra o poder, mas o trabalho com a linguagem e com a poesia.

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Correntes d’Escritas 2012: Terceira Mesa

Na terceira mesa do encontro, Ivo Machado modera Manuel Rui, Manuel António Pina, Margarida Vale de Gato, João Luís Barreto Guimarães e Jaime Rocha, que têm a árdua tarefa de dissertar a partir da frase-tema “a poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras”.
Jaime Rocha abre a mesa lembrando que a economia, nos dias que correm, está muito pouco próxima daquilo que exigiria a sua origem etimológica; do governo da casa passou-se para algo que nada tem a ver com isso. E abandonando essa economia, tão pouco interessante e tão indiciadora de catástrofes, passa para a economia do poema. Lembrando as reescritas e as exclusões de partes de uma obra poética cita Joaquim Manuel Magalhães e Herberto Helder, casos ‘clássicos’ (que, apesar de tudo o que já excluíram das suas obras e de tudo o que já reescreveram, não tiveram, nem têm, como apagar o que já está publicado).
João Luís Barreto Guimarães compara a relação da poesia e da economia com dois dançarinos que pisam, sucessivamente, os pés um do outro, “só que à economia nunca a haveremos de ouvir pedir desculpa”. Definindo um livro de poesia como um livro cujas páginas contêm, em partes iguais, palavras e silêncios, João Luís Barreto Guimarães sugere que talvez os editores não sejam muito dados à publicação de poesia porque sentem algum pudor em tentar vender livros que contêm tanto espaço por preencher (“é um pouco como a gente tentar vender o buraco do pão de ló”), e não porque vendam pouco. Quem pensava que seria difícil juntar poesia e economia numa mesma intervenção, já está desenganado: o autor prossegue comparando os espaços em branco dos livros de poesia ao vasilhame das garrafas, referindo as possibilidades de poupança que se encerram na reutilização desse espaço em branco como lista de compras e chamando a atenção para a vertente low cost do haiku (forma, aliás, muito cultivada pelo ministro Vitor Gaspar, que assim comunica com o povo: “a borboleta tem nome/ décimo terceiro mês/ a borboleta voa”, haiku que talvez se leia no hebdomadário a que chamamos Diário da República, como assegura João Luís Barreto Guimarães).
Margarida Vale de Gato começa a leitura de um texto que abre com “Economia e poesia, era o que mais querias!”, depois de referir a sua participação nos activismos sociais que têm discutido os futuros possíveis para que a economia não destrua o que ainda temos. “Inevitável é a tua tia”, diz Margarida Vale de Gato, ecoando a frase que têm ocupado muitas ruas. Eu contenho-me, evitando aplaudir cá de cima, mas daqui a nada já lhe vou pedir o texto para publicar aqui. Espero que mo empreste, porque gostava que quem por aqui passa o pudesse ler.
Também em registo de leitura, Manuel Rui envolve o auditório na sua voz grave e no ritmo de um texto onde rimas, paisagens e partilhas não deixam de falar do mundo inteiro à mesa de um jantar na Póvoa, à beira de um livro que não se esquece e, até, à beira da frase-tema que juntou os autores nesta mesa.
Manuel António Pina recusa a ideia segura que se encerra por trás do início da frase-tema, “a poesia é…”, apontando a impossibilidade de qualquer definição. A linguagem poética como “uma língua dentro da própria língua” garante, no entanto, a resitência à banalidade do uso da língua comum, e isso será algo que podemos reconhecer quando arriscamos uma definição do termo. Recusando a peremptoriedade da frase-tema, Manuel António Pina deixa mais questões para pensar do que dá respostas capazes de sossegarem as possíveis almas inquietas que por aqui andem, mas também isso faz das Correntes aquilo que são. É que as respostas não têm grande utilidade quando as perguntas nos entusiasmam as meninges com tanto afinco. E sobre a utilidade, a função, a correcta economia das palavras, Manuel António Pina conta a resposta de Rilke ao jovem poeta que lhe pergunta se deve continuar a escrever (nas suas Cartas a um Jovem Poeta): “se pode parar de escrever, aproveite.” Depois disso ainda há-de contar a história do dia em que, para desistir de modo honrado de uma prova de atletismo que se preparava para perder , decidiu rebentar o elástico dos calções, que caíram, permitindo uma saída cómica mas airosa. Por estranho que pareça, veio esta história a propósito da estrutura formal, da dimensão e da mancha tipográfica do poema, mas duvido que alguém se vá lembrar da relação entre as duas coisas durante muito tempo. Já do elástico dos calções, arrisco dizer que entrará para a longa compilação que já é o anedotário das Correntes d’Escritas.

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Prémios PEN Clube

Os Prémios PEN Clube distinguiram Pedro Rosa Mendes, com Peregrinação de Enmanuel Jhesus (romance, D. Quixote), Jaime Rocha, com Necrophilia (poesia, Relógio D’Água) e André Gago, com Rio Homem (primeira obra, Asa). Na categoria de ensaio, o PEN Clube distinguiu João Barrento, com O Género Intranquilo. Anatomia do ensaio e do fragmento (Assírio & Alvim) e Jorge Vaz de Carvalho, com Jorge de Sena. ‘Sinais de Fogo’ como romance de formação (Assírio & Alvim).

 

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Hélia Correia, em Março

É o blog da Relógio d’Água quem o assegura: em Março, chega às livrarias um novo romance de Hélia Correia, Adoecer. E chega também Necrophilia, de Jaime Rocha.

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