Crónica dos Lugares II

Na lista dos sítios nada turísticos mas absolutamente essenciais para visitar em Dublin tinha anotado o nome de uma livraria, a Connolly Books, depois da recomendação de uma amiga emigrada na Irlanda do Norte (e agora redescoberta na blogosfera). ‘No número 43 da East Essex Street’, garantiu ela, ‘encontras uma livraria que tens mesmo de conhecer’. Estava certa. A Connolly Books oferece o mundo a quem queira descobrir a literatura e a cultura irlandesas e o paraíso a quem procure livros, jornais ou panfletos com queda para a esquerda – nomeadamente, para o Communist Party of Ireland, o que desagradou um bocadinho à minha costela pouco dada a partidos comunistas tradicionais, mas enfim…
O sítio não era muito visitado por turistas e isso foi visível assim que entrei. O livreiro recebeu-me com curiosidade, mas deixou-me deambular pelas estantes à vontade, encetando a conversa apenas quando me viu aproximar da bancada mais perto do balcão. O sotaque esquisitoide não enganava ninguém – era óbvio que eu não vinha de nenhum país de língua inglesa. À palavra Portugal reagiu com um comentário entusiasmado sobre a ‘revolução dos cravos’, aos meus parcos conhecimentos sobre a Irlanda reagiu com orgulho disfarçado e à minha ausência de militância partidária não reagiu de todo. Foi a literatura que desbloqueou a conversa. Eu já tinha comprado alguns livros noutras livrarias da cidade e o que procurava, naquele momento, para compor a minha biblioteca era qualquer coisa abrangente, que me permitisse levar para casa toda a literatura irlandesa que não podia comprar. Modern Irish Short Stories foi a primeira recomendação. Muito para ler e a possibilidade de conhecer vários autores num só livro convenceram-me. Seguiu-se o The Oxford Companion to Irish Literature. Era caro, mas eu não nasci para regatear (e tenho pena, mas é mesmo uma incapacidade total), por isso hesitei. Era da Oxford University Press, o que para o livreiro era um defeito e para mim uma qualidade, apesar de toda a minha simpatia pela causa irlandesa. Percebendo tudo, o homem propôs-me um negócio que só me beneficiava a mim e que eu aceitei depois de confirmar que ele sabia ser o único prejudicado: vendia-me o The Oxford Companion to Irish Literature com um desconto assinalável se eu levasse também um pequeno opúsculo sobre James Connoly, oferecido pela casa. Reagi ao nome de Connolly e ao sorriso algo matreiro do livreiro seguiu-se a epifania: eu conhecia James Connolly! E de repente, a minha não militância partidária já não era importante; eu conhecia Connolly, eu tinha lido alguma coisa sobre a independência da Irlanda, eu tinha de ser boa pessoa. Nesse dia percebi que não vale a pena discutir com um irlandês repentinamente comovido. Paguei os livros, agradeci o desconto e prometi ler o folheto sobre Connolly de fio a pavio, promessa que cumpri assim que cheguei a Lisboa.

No dia em que visitei a Connolly Books esqueci a habitual fotografia da entrada, pelo que o único registo visual que tenho do lugar foi tirado no dia seguinte, infelizmente, já com o estaminé encerrado. Quando procurei pela livraria na internet, esperançosa de encontrar mais imagens, deparei-me com um estabelecimento renovado: a entrada já não é vermelha e amarela e o interior perdeu alguma da sua atmosfera de conspiração. As estantes empenadas até ao tecto e o quase lusco-fusco permanente desapareceram. Do livreiro não sei nada; não aparece nas fotografias. Apesar disso, parece continuar a ser um local agradável, mas eu prefiro lembrar-me do espaço como era nesse fim de Verão de 1997 e do seu cicerone, casmurro, generoso e irlandês.

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