Crónica do Descalabro I

Quando comecei a frequentar a secção de reservados da Biblioteca Nacional, ainda na miragem de me transformar numa medievalista com óculos encerrada numa biblioteca intemporal, sentia uma espécie de aperto no estômago sempre que tinha de requisitar um manuscrito. Lembro-me bem da primeira vez que isso aconteceu: o manuscrito era uma compilação de vidas de santos, feita no Mosteiro de Alcobaça em meados do século XIV, e a funcionária da secção, desconfiada dos meus ténis e do meu ar pouco medieval, não acreditou à primeira que eu fosse investigadora, nem sequer que tivesse acabado o liceu (e isto deve abonar a favor do meu ar juvenil, porque na altura já estava a iniciar o mestrado). Ultrapassado o equívoco etário, e rapidamente transformado o ‘menina’ em ‘doutora’, ou não estivéssemos em Portugal, o manuscrito lá veio.
Quando uma segunda funcionária colocou a caixa de cartão cinzento em cima da minha mesa, as tremuras começaram. Tentando manter a compostura, lembrei-me das regras que tinha lido em vários livros sobre como manusear correctamente um manuscrito tão vetusto – afinal, se alguém se deu ao trabalho de escrever regras tão repetidas em manuais de critica textual e filologia, elas teriam alguma razão de ser. Recordadas as regras, dirigi-me novamente à funcionária e solicitei-lhe as luvas. Depois dos ténis, isto foi o descalabro. “ – Luvas? Nós aqui não usamos luvas!”, respondeu ela, como se nunca ninguém houvesse referido a importância de um par de luvas no manuseamento de espécies antigas, para evitar que a transpiração natural das mãos degradasse o pergaminho ou o papel. Voltei para o lugar, compreendendo que na terra dos ‘doutores’ instantâneos não era preciso ter tantos cuidados com manuscritos antigos e tentando encontrar uma forma de dominar o nervosismo e, claro, a transpiração das mãos. Não correu mal a minha estreia nos manuscritos, e rapidamente aprendi que a veneração e o inerente cuidado com livros antigos era uma coisa pouco considerada por aquelas bandas. Já a utilização de ténis nos dias de visita aos reservados era vista como coisa pouco credível…
Algumas visitas mais tarde, e vários manuscritos depois, a coisa agravou-se. Começou a ser frequente encontrar manuscritos com folhas arrancadas ou com pequenos pedaços (aparentemente correspondendo a letras capitais iluminadas) cortados à tesoura. Como é que uma tesoura entra na Biblioteca Nacional, é um mistério por esclarecer. Como é que um leitor utiliza uma tesoura para cortar pedaços de manuscritos numa sala que não é assim tão grande e que está sempre vigiada, é um mistério ainda maior. Consultando os vários volumes da História da Biblioteca Nacional descobrem-se elementos que confirmam a destruição como tradição: notícias de manuscritos roubados ou escândalos na imprensa com um antigo director cuja vigência coincidiu com o desaparecimento de algumas espécies e com a destruição de partes de manuscritos fazem parte do rol. Quem imaginava a secção de reservados como uma espécie de templo reservado a iniciados onde se guardava a sete chaves uma parte considerável da história, da cultura e da língua estava a delirar. Eu estava seguramente a delirar quando imaginei semelhante coisa.
Podia continuar e apontar a péssima qualidade de alguns microfilmes (que se destinam a evitar o recurso desnecessário aos manuscritos mas que, estando em mau estado, só servem para aumentar as dúvidas de leitura e as dioptrias), a permanente avaria das máquinas de fotocópias ou a necessidade de se imprimirem quatro folhas – quatro – de papel A4 sempre que alguém tem de pagar vinte cêntimos por duas ou três fotocópias (é mesmo verdade: uma folha é para a tesouraria, a outra para o utilizador e as outras duas parece que ficam no arquivo… A situação seria cómica se não fosse tão triste e as funcionárias não podem evitá-lo, embora eu ache que o queriam fazer, porque são ordens superiores!).
Agora que a anterior ministra da cultura foi substituída, não seria boa ideia pensar um bocadinho nisto? Bem sei que a lista de coisas para pensar e resolver deve ser quase infinita, mas creio que o património que se guarda naquela biblioteca não é exactamente vulgar… Ali estão os testemunhos de vários séculos de história, fontes privilegiadas (e em muitos casos, únicas) para o estudo da cultura, da política, da sociedade e da língua portuguesa. Não seria mais interessante recuperar e proteger esse património, em vez de, por exemplo, gastar uns milhões no dito ‘museu do mar e da língua’, que afinal será uma sequência de computadores e ecrãs (a querer imitar o Museu da Língua de S. Paulo, mas em pequenino, como quase tudo, como sempre) que custaram ao país a destruição do Museu de Arte Popular (para cuja reabertura a União Europeia largou algum dinheiro, destinado exclusivamente a esse objectivo) e que não terão maior função do que entreter jornalistas no dia da inauguração, enquanto alguém debita as maravilhas do choque tecnológico? Se calhar é uma pergunta tão ingénua como acreditar na inexpugnabilidade da secção de reservados da Biblioteca Nacional.

6 comments

  1. O “descalabro” não se fica pela Biblioteca Nacional. É muito mais amplo.
    Um exemplo, entre outros que referir.
    Há dois anos, precisando de consultar as actas das sessões da Câmara Municipal de Vila Verde, entre 1850 e 1910, dirigi-me aos Paços do Conselho. Aí, mandaram-me para a Biblioteca Municipal. Nesta, mandaram-me recambiado para os Paços do Município, porque era aqui que as actas estariam. Regresso à casa de partida. As actas estão lá, informam-me, com impaciência. De qualquer dos modos, acrescentam, terei de fazer um requerimento escrito dirigido ao vereador da Cultura. Faço o requerimento e quando pretendo entregá-lo fico a saber que o vereador não está e que só com o seu consentimento poderei ter acesso à parte do arquivo histórico da autarquia que me interessava. Deixe o requerimento, que depois dizemos alguma coisa. Sem remédio assim fiz. Semanas depois recebo um ofício da dita Câmara Municipal, a informar-me que o meu requerimento fora enviado para a Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA), em Lisboa.
    Meses depois, a Comissão informou-me do óbvio: que podia consultar livremente os documentos. Na mesma data, informou a Câmara. Mas esta só semanas depois me deu conhecimento da decisão da CADA.

  2. Pois…Imagino que um levantamento do que se passa pelos arquivos do país daria uma imagem de descalabro ainda maior.

  3. O que aqui é narrado é completamente inconcebível.

    Não sou um frequentador da Biblioteca Nacional, no entanto estava longe, muito longe de imaginar que tamanho crime se está a praticar.

    No entanto tenho uma questão a fazer:

    Sendo frequentadora e investigadora não será que tem também responsabilidade em expôr o que viu às entidades competentes?

    Segundo sei a Biblioteca Nacional tem de ter o Livro de Reclamações. Para além de o usar, pode divulgar tamanho atentado a outras entidades que, como investigadora, deve decerto saber quais as competentes.

    Cump.
    Miguel

  4. Já o fiz, Iceman, na altura em que isto se passou. Agora limitei-me a transformar os factos passados em crónica.

  5. Um bem haja então.
    Neste país, e se calhar em todos, há coisas na vida real dignas de um romance gótico.

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