Dos conceitos: a existência

Milan Kundera, A arte do romance

II

(Breve selecta da História do Romance Moderno, a partir de Milan Kundera)

«Quando Deus abandonava lentamente o lugar de onde tinha dirigido o universo e a sua ordem de valores, separado o bem do mal e dado um sentido a todas as coisas, Dom Quixote saiu de casa e já não estava em condições de reconhecer o mundo. Este, na ausência do Juiz supremo, apareceu subitamente com uma terrível ambiguidade; a única verdade divina decompôs-se em centenas de verdades relativas que os homens partilharam entre si. Assim, o mundo dos tempos modernos nasceu e o romance, na sua imagem e modelo, nasceu com ele. (pp. 18,19)
«Os primeiros romances europeus são viagens através do mundo, que parece ilimitado. (…) O infinito perdido do mundo exterior é substituído pelo infinito da alma. A grande ilusão de unicidade insubstituível do indivíduo, uma das mais belas ilusões europeias, floresce. (pp. 20,21)
«Passados três séculos que aconteceu então à aventura, esse primeiro grande tema do romance? Ter-se-á ela tornado na sua própria paródia? Que quer isso dizer? Que o caminho do romance se conclui num paradoxo?
«Kafka e Hasek confrontam-nos, pois, com este imenso paradoxo: durante a época dos Tempos modernos, a razão cartesiana corroía um após outro, todos os valores herdados da Idade Média. Mas, no momento da vitória total da razão, é o irracional puro (a força não querendo senão o seu querer) que se apoderará do palco do mundo porque já não haverá nenhum sistema de valores, comumente aceites, que possa fazer-lhe obstáculo.
«Os últimos tempos pacíficos, em que o homem tinha tido de combater apenas os monstros da sua alma, os tempos de Joyce e Proust, tinham terminado. Nos romances de Kafka, de Hasek, de Musil, de Broch, o mostro vem do exterior e chama-se História; não se parece já com o comboio dos aventureiros; é impessoal, ingovernável, incalculável, ininteligível – e ninguém lhe escapa. É o momento (logo a seguir à guerra de 14) em que a plêiade dos grandes romancistas centro-europeus percebeu, tocou, aprendeu, os paradoxos terminais dos Tempos modernos.»

A desesperança, o vazio, a superficialidade parecem assim ser as únicas sobreviventes da aventura, do idealismo, do realismo, da alteridade e do sonho. Apenas a beleza permanece, como espécie de lugar possível de surpresa. «(…)todos os aspectos que o romance descobre, descobre-os como beleza. (…) Beleza, a última vitória possível do homem que já não tem esperança. Beleza na arte: luz subitamente feita do nunca-dito.» (p.143) Nesse aspecto, Kundera não está longe da perspectiva defendida por pensadores, filósofos e artistas. A pós-modernidade assume-se, para muitos, como o último lugar, o da sobrevivência irónica e pragmática. A lucidez de que fala este autor parte dessa consciência, de que já não há lugar outro, fora ou dentro da existência individual.
Provavelmente por isso, os romances de Milan Kundera tendem para o reconhecimento e as reflexões, mesmo que enquadradas numa forma de existência, não são muitas vezes mais do que variações sobre si mesmas. As expectativas de leitura saem logradas pela repetição de paradigmas de existências frustradas, amarguradas, desatentas, insatisfeitas, em conflito com um contexto pessoal opressor. A sua história particular é sugada pelos temas (pelas palavras em torno das quais se reflecte), dentro de uma organização irónica e paródica, como única possibilidade perante a ausência de respostas, de revoluções. Nos seus romances, Kundera justifica com o texto os paradoxos que considera existir, mas não se leva ao limite, como Kafka, que tanto admira e cuja obra escalpeliza no volume. A fórmula de Kundera é mais previsível e apreensível do que a de Kafka, porque este último leva as situações e as personagens ao limite do inapreensível, seja ele a culpa, a inverosimilhança, ou a crueldade. A claustrofobia que Kafka provoca renova-se, as palavras de Kundera reafirmam-se num circuito fechado, circular.
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