Caprisone e bolachas araruta (Crónicas do Baú)

O ano era o de 1985, o Dartacão passava aos fins de semana e os iogurtes da Vigor eram quadrados e tinham sabores tão impensáveis como chocolate, avelã ou chila. Com sete anos, as primeiras leituras sem imagens iniciadas há mais ou menos um ano, os meus desejos quotidianos centravam-se na denúncia da maldade de Milady – era urgente que Julieta e o próprio Dartacão percebessem que ela era mesmo má! – e na descoberta de mais livros. Já tinha percebido que a faculdade de juntar letras sem a ajuda de ninguém me permitia longas horas de deambulação por mundos diferentes do meu, onde os iogurtes podiam não ter sabores impensáveis, mas onde eu experimentava e descobria coisas que a casa, a escola e os outros espaços que constituíam o meu horizonte não podiam dar-me. Foi nesse ano que a minha mãe, sócia do Círculo de Leitores há vários anos, descobriu uma colecção de livros infantis que oferecia a passagem dos livros ilustrados, de formatos grandes e quase sem texto para os livros com mais texto do que imagem, com um formato semelhante à maioria dos livros ‘adultos’ que eu via à minha volta. A colecção chamava-se Arlequim e marcou, definitivamente, a minha chegada às leituras que já não necessitavam do apoio das imagens para se tornarem interessantes.

O Pequeno Fantasma, de Orfried Preussler, foi o primeiro livro da colecção a chegar-me às mãos. E a história de um fantasma que habitava um velho castelo e não compreendia porque é que só à noite podia exercer os seus dotes de assombração conquistou a minha devoção à colecção Arlequim. Assim, entre aniversários e natais, seguiram-se mais títulos. Konrad ou O Menino Que Saiu de Uma Lata de Conservas, de Christine Nostlinger, que para além da hilaridade de uma lata de conservas a guardar uma criança (teoria muito mais apelativa do que a história das cegonhas… afinal, nunca se viam cegonhas nos céus de Queluz, e latas de conservas havia-as por todo o lado), oferecia uma certa afirmação de personalidade, mais preocupada com aquilo que somos do que com aquilo que os outros pensam de nós, lição impagável para o crescimento que se desenrolava. Jim Botão e Lucas o Maquinista, de Michael Ende, com a locomotiva Emma levando os dois protagonistas por locais de aventuras, bem como Um Gnomo na Corte do Rei Dólar, de Upton Sinclair, trazendo o tema da devastação das florestas, que na altura parecia tão fantasioso como os gnomos, e falando de ganância e de solidariedade. E, claro, o memorável Emílio e os Detectives, do alemão Erich Kastner (entretanto reeditado na Vega), uma das mais sólidas memórias que guardo da infância e também um dos livros mais importantes do meu percurso de leitora.
Imagino que alguns destes livros tenham esgotado, ou que ainda sobrem exemplares nalgum armazém perdido. Imagino também que a sua reedição não seria disparatada. Se algum editor se quiser aventurar…

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