Crónicas do Baú II

Aprendi a ler com a Teleculinária. Bem sei que me assentaria muito melhor dizer que foi com a Odisseia, mesmo que numa versão juvenil, mas a verdade é que foi a capa de uma Teleculinária que me fez descobrir que era fácil juntar letras, formando palavras. O alfabeto era já meu conhecido há algum tempo, sobretudo pela presença da minha irmã, seis anos mais velha, que por algum motivo incompreensível para mim na altura já lia há muito tempo, enquanto eu apenas conseguia dizer, cada vez mais rapidamente, a sequência completa das letras que o formavam. Faltavam poucos meses para a entrada na primeira classe e eu já não suportava aquela lengalenga do abecedário (imagino como se sentiriam as pessoas da família) e os esforços de debitar letras como se isso me abrisse as portas para todos os livros que moravam lá em casa, e que a minha irmã lia sem dificuldade. Eu queria ler e o raio das férias nunca mais chegavam ao fim e eu nunca mais ia para a escola aprender, finalmente, a decifrar as letras. Até que numa tarde em que já ninguém devia poder ouvir o ‘abcdefghij…’ e as minhas lamúrias por ainda não conseguir ler, a minha mãe agarrou no que estava mais à mão – e era uma Teleculinária – e disse-me para ler o que estava na capa. Se eu conhecia as letras, se eu tinha uma noção dos sons que representavam, se eu tinha tanta vontade de ler, então que lesse. E eu li. E como já era pudica na altura, evitei a todo o custo a terceira sílaba, porque sabia que ‘cu’ era o tipo de palavra que não fazia mal aprender, mas que não seria suposto alardear assim ao pé dos adultos. A minha mãe insistiu e quando venci, em voz alta, o pudor da terceira sílaba, já tinha percebido que tudo o que estava naquela capa era perfeitamente legível para mim. Tinha-se acabado a ladainha do ‘abcdefghij…’ e os lamentos infantis pela incapacidade leitora. O mundo estava, agora, à minha disposição.
Entre a Teleculinária e as primeiras leituras de que tenho memória devo ter lido o que havia disponível, entre livros meus e da minha irmã, com mais ou menos imagens. E quando a primeira classe chegou eu sentia-me a rainha das letras. Faltava, claro, perceber que o facto de já saber ler não beneficiava em nada com as minhas maratonas em voz alta: a professora mandava ler – o livro era o Papu, nome completamente abstruso para um manual escolar, mas ainda assim memorável – e eu erguia a voz e lia tudo o que me aparecia à frente com o máximo de velocidade que conseguia imprimir ao processo. O resultado era sempre uma enorme irritação da professora e um ar um bocado chateado dos colegas, agora submetidos a uma tortura que em nada diferia da do ‘abcdefghij…’ que a minha família tinha vivido durante algum tempo. E talvez estas leituras sonoras e sem travões tenham sido o grande motivo para a minha descoberta precoce das maravilhas da leitura solitária e silenciosa, descoberta cujos frutos permaneceram, felizmente, mesmo depois de ter percebido que ninguém queria ouvir-me ler a cem à hora, não só porque era irritante como porque algumas sílabas acabavam comidas. Passei, então, a ter sempre um livro na mala e ganhei o direito a uns minutos de leitura por minha conta antes de apagar a luz.

Pouco antes do episódio da Teleculinária, a minha mãe lia-nos todas as noites um pedaço de As Aventuras do Avião Vermelho, de Erico Verissimo. Quando a leitura se instalou sem segredos, descobri que esse era apenas um livro de uma vasta colecção, cujos números passaram a constar das ofertas natalícias e de aniversário por parte da família. A colecção era a Picapau, da editorial Verbo, e os livros que me chegaram foram sendo lidos com a mesma avidez com que queria dizer o abecedário uns meses antes, só que agora com a calma e a surpresa que permitiam o prazer de cada página. Esther de Lemos, Erico Veríssimo, Patrícia Joyce, Fernanda de Castro, Ricardo Alberti ou Adolfo Simões Müller eram alguns dos escritores, muitos deles reincidindo em vários números da colecção e deixando-me conhecer, mesmo sem saber, uma amostra significativa da literatura portuguesa e brasileira. E as ilustrações de Fernando Bento cumpriam, vejo-o hoje, o importante papel de dar a ler imagens coerentes com o texto, sem nunca lhe roubar o protagonismo e sem formatar a imaginação de quem lia. Os livros com contos curtos foram os primeiros que li, deixando os que tinham um único texto, longo, para mais tarde. Bonecos de Papel de Cor e O País dos Sorrisos, ambos de Ricardo Alberti, A Menina de Porcelana e o General de Ferro, de Esther de Lemos , O Urso Com Música na Barriga e, claro, As Aventuras do Avião Vermelho, de Erico Veríssimo, são histórias de que ainda hoje me lembro, bem como do momento em que primeiro as li. E de toda a colecção, lembro-me sobretudo de um outro livro, com uma única história, lido uns dois ou três anos mais tarde: chamava-se Os Sótãos Furados, foi escrito por Maria do Carmo de Almeida e posso dizer, sem hesitações e sem medo de que não fique bem não dizer isto de um livro mais erudito (também, depois da Teleculinária, já ninguém esperaria), que é um dos livros da minha vida. Sim, há a Odisseia, claro, e Os Irmãos Karamazov, e parte considerável dos autores do cânone, uns de melhor memória que outros, mas o primeiro livro que realmente li com a consciência de tudo estar a mudar no modo como eu via o mundo foi Os Sótãos Furados. E isso merece, claro está, um outro texto, tão brevemente como as noites de insónia o permitam.
Perdoada do pedantismo pela turma, lá percebi que ler como quem relata a bola era uma coisa muito estúpida, mas a preferência pela leitura silenciosa ficou, mantendo-se o horror de ler em voz alta até hoje. Pelo caminho, ainda converti um ou dois colegas à colecção Picapau, e espero que guardem dela uma memória mais forte do que das minhas leituras aceleradas.

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