Etty Hillesum, Diário 1941-1943, Assírio & Alvim

Passaram mais de quatro décadas até que os Diários de Etty Hillesum, holandesa, judia e intelectual morta em Auschwitz, em 1943, fossem publicados na Holanda, iniciando-se a sua tradução para várias línguas nos anos seguintes. A Assírio & Alvim publica-os agora em português, na colecção Teofanias, tornando acessível um texto que merece inúmeras releituras, não só pela saúde daquilo a que chamamos memória, como pelo abismo de questões e reflexões que cada página convoca.
A capacidade premonitória com que faz uma análise, sempre nítida, do momento histórico que vive tem tanto de assombroso como de angustiante. Etty prepara-se para o campo de concentração como quem sabe, sem espaço para dúvida, que esse passo será inevitável, e ainda assim não o faz de modo resignado ou desistente, ainda que todo o edifício teórico e espiritual que sustenta tal estado de alma seja, em muitos passos da leitura, de difícil assimilação: “«Quando uma pessoa leva uma vida interior, talvez nem haja assim tanta diferença entre estar fora ou dentro dos muros de um campo. » Será que irei conseguir justificar a mim mesma estas palavras mais tarde? Será que as conseguirei pôr em prática?” (p.175). E quando, perto do fim do Diário, esse momento se prefigura para breve, a leitura dos registos dos últimos dois anos torna-se mais clara, como se toda a aprendizagem de si que Etty fez ao longo desse tempo tivesse sido também uma espécie de lucidez crescente, um conjunto de passos cada vez mais seguros para a vivência que se seguiria, e que os leitores já não poderão acompanhar. Apesar disso, a lucidez com que Etty afirma a necessidade de uma memória futura do momento histórico que vive é constante, ainda que a sua opção tenha sido a de construir essa memória menos pela descrição dos factos (“Não quero ser a cronista dos horrores. Há-de haver outros em número suficiente.”, p.326) do que pela análise, levada às últimas consequências da indagação e do auto-enfrentamento, da humanidade e da sua condição.

Sara Figueiredo Costa

(Texto publicado na revista Time Out, nº38, 18-24 Jun 08)

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