Crónicas do Baú III

O maior e mais acicatado debate que pode desenrolar-se em torno da dita literatura juvenil prende-se, em Portugal, com a oposição Cinco / Uma Aventura. Há outros debates decorrentes deste: Cinco por oposição a Sete, Cinco e Sete versus As Gémeas, etc… São tudo debates que podem começar numa alegre sessão nostálgica e acabar com insultos entre amigos que descobrem, de repente, que os seus oponentes nunca compreenderam o fascínio dos scones ingleses com geleia ou, em alternativa, a maravilha de embarcar em aventuras rocambolescas com um caniche como uma das companhias, mas não creio falhar se disser que a escolha entre os Cinco e Uma Aventura reúne as intervenções mais apaixonadas, pelo menos pela geração que apanhou ambas as séries. A minha posição é muito peremptória, como convém a tais debates: Os Cinco são infinitamente melhores. Desde logo porque a escrita de Enid Blyton aproveita de modo exemplar a herança literária anglo-saxónica, sabendo incorporar tudo o que alguns clássicos legaram (Mark Twain, Daniel Defoe ou C.S.Lewis, por exemplo), lidando com o humor sem a necessidade do estardalhaço do riso e criando narrativas que, mesmo sendo facilmente situáveis num tempo em que o entretenimento e a descoberta passavam por espaços e brincadeiras bem diferentes das que hoje predominam, possuem um carácter intemporal, marcado pelas descobertas do crescimento, por uma ingenuidade só aparentemente inocente e por um espírito de risco que a consciencialização posterior só pode abrandar. Para além disso, a galeria de personagens criada por Blyton é imbatível, reconhecendo-se com facilidade em leituras posteriores de alguns escritores de gabarito incontestável.
Apesar disso, depois de esgotada a série dos Cinco – e por esgotada quero dizer lida e relida várias vezes – , a leitura de Uma Aventura ganhou o seu espaço. Se a memória não me atraiçoa, o primeiro livro que li foi o volume 3, Uma Aventura na Falésia, que a minha irmã tinha na estante (e penso que foi o único que ainda a apanhou, embora, suspeito, já sem grande entusiasmo). Seguiram-se mais dois ou três, até que me foi oferecido o volume 22: Uma Aventura em Lisboa.

E este, sim, desencadeou alvoroços vários. Pelo que vejo na ficha técnica, a edição é de 1988, o que me coloca nos dez anos de idade. Nessa altura, para além de querer ser veterinária, outro projecto futuro preenchia os meus sonhos: eu queria trabalhar numa rádio pirata, de preferência instalada no meu quarto. Na verdade, um dos cantos do meu quarto tinha sido transformado num estúdio de rádio que, pelas óbvias limitações orçamentais, apenas transmitia para… o meu quarto. Em cima de uma arca branca, para além de um teclado oferecido pelo meu avô, onde eu aprendia os primeiros acordes que haveriam de alimentar sonhos mais tardios, um pequeno gravador de cassetes, um painel de cartão com botões feitos de caricas e, o ex-libris da instalação, um cabo de vassoura ao qual se acoplava, com metros de fita cola, um pequeno microfone feito, pela minha mãe, a partir de um pedaço de madeira, uma bola de algodão e um plástico que envolvia o algodão, amarrado com um elástico. O estaminé garantia horas de entretenimento, com emissões non-stop de discos pedidos, programas informativos e reportagens, tudo acompanhado por algumas notas tiradas do teclado. Acontece que no número 22 de Uma Aventura, o grupo de personagens principais encontra um companheiro, um tal Eduardo que, no sótão do seu prédio, tinha uma rádio pirata. Era o delírio, e mesmo que o sótão do meu prédio estivesse ocupado com moradores (imagino que na sequência de um daqueles golpes de imaginação de senhorios dedicados ao aproveitamento total do espaço, já que nas garagens também vivia gente…), passei a alimentar o projecto de fazer sair a minha rádio do quarto, conferindo-lhe potencial para transmitir para todo o bairro. A Aventura do número 22 centra-se no desaparecimento misterioso de umas jóias, obviamente recuperadas pelos oito amigos, mas o que ocupou para sempre a minha memória foi aquela rádio impossível.
Ora, em 1988, Cavaco Silva era Primeiro-Ministro e estava no segundo ano da sua maioria absoluta. É certo que, com dez anos, eu percebia pouco de política, embora soubesse que, lá por casa, Cavaco não tinha apoiantes. Mas nesse ano, Cavaco ganhou uma feroz opositora em Queluz: eu mesma que, do alto dos meus dez anos, descobri que o Governo ia proibir – ou já o teria feio, não sei bem – as rádios pirata. Não me lembro bem dos contornos do processo, que ouvi em alguns telejornais e que os adultos me terão explicado. Em pesquisas no google encontro algumas referências e uma delas aponta, precisamente, para 1988, o que dará credibilidade às minhas lembranças. Aquilo foi um golpe nos meus sonhos infantis, uma machadada impiedosa no meu futuro radiosamente garantido aos microfones de uma rádio. A partir daquele momento, Cavaco tornou-se num inimigo figadal, do calibre de um Skeletor ou de uma Bruxa do Oeste. Só que, com dez anos, a minha capacidade reivindicativa era diminuta; ainda não tinha descoberto o potencial do megafone nem a possibilidade de organizar protestos através de reuniões e panfletos. Não fiz nada, portanto, limitando-me a vociferar contra o Primeiro-Ministro aos microfones da minha rádio de frequência limitadíssima, para divertimento da família que, imagino eu, ouvia as emissões do quarto sem ter de sintonizar qualquer aparelho. E essas foram, estou certa, as emissões radiofónicas mais duras e críticas que Cavaco enfrentou, mesmo que nunca as tenhas ouvido. Cavaco levou por diante a sua proibição e eu, que graças ao número 22 de Uma Aventura tinha descoberto a possibilidade real de concretizar um sonho, nunca mais lhe perdoei. Anos mais tarde, de megafone nas mãos por entre gigantescas manifestações contra as propinas e uma ou outra saraivada de bastões, aquela ofensa ainda morava no meu rol de queixas e exigências, mesmo que os meus companheiros de protesto nunca o tenham imaginado.

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