Rita Taborda Duarte e Luís Henriques, O Tempo Canário e o Mário ao Contrário, Caminho

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A frase é de C.S.Lewis: “Inclino-me para a regra segundo a qual uma história para crianças que apenas agrade a crianças é uma má história para crianças.”

Ouvido o mestre, confirma-se o princípio; o epíteto de literatura infantil terá o seu cabimento no âmbito do mercado e da edição, mas aqui estamos perante um livro de enorme qualidade formal, narrativa e plástica, cujo conteúdo prescinde de categorias editoriais. O Tempo Canário e o Mário ao Contrário revela, na sua construção, o labor de pensar e fazer pensar sobre o tempo e a sua inexorável passagem num equilíbrio perfeito entre a fuga de simplificações (que contamina muitos livros ditos ‘infantis’) e uma narrativa que consegue abordar temas como o crescimento, a sucessão de gerações e a morte sem nunca se afastar da construção literária e sem qualquer cedência ao didactismo.

Vários passos para lá da simples mediação do texto, que ainda persiste em colar-se aos livros ilustrados editorialmente pensados para os leitores mais novos, as ilustrações de Luís Henriques conjugam-se com a escrita de Rita Taborda Duarte estabelecendo uma relação de complementaridade, diálogo íntimo que vai tecendo sentidos mútuos a partir dos elementos verbais e pictóricos. O traço fluído e sinuoso de Henriques, com uma utilização eficaz das sombras na definição de espaços e volumetrias, convoca momentos do texto de um modo que transcende a representação ou o esclarecimento, incorporando-se na narrativa como elemento intrínseco e de pleno direito. E o texto, onde a riqueza vocabular e os jogos de linguagem marcam presença, usa com inteligência a indagação sobre a semântica e o léxico para procurar conclusões seguras sobre a imparável sucessão dos dias, como acontece no ‘Dicioneiro’, o dicionário verdadeiro que antecede a história do Tempo Canário, aprisionado pela teimosia de Mário. O resultado é uma reflexão sobre o tempo a partir de metáforas e alegorias que ora lhe relativizam a inevitabilidade do curso, ora lhe acrescentam leituras onde a alegria de andar por cá se sobrepõe aos cabelos brancos, à coluna encurvada e às dores articulatórias que hão-de chegar. Uma espécie de “Always Look at the Bright Side of Life”, com Monty Python e tudo.

Sara Figueiredo Costa
(Versão ‘integral’ do texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso, 13 Dez. 2008)

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