Elias Canetti, A Língua Posta a Salvo, Campo das Letras

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A primeira memória evoca o medo, uma faca encostada à língua e o chão tingido de vermelho. Confirma-se depois que a memória era a de uma ilusão, correspondendo a uma realidade muito diferente, e a partir desse momento o leitor confirma que partilhar as memórias de alguém é aceder a uma construção muito mais complexa do que o relato de factos passados.

Nascido em 1905, na Bulgária, numa família de judeus sefarditas com raízes fincadas na tradição, muda-se aos seis anos para Manchester, com pais e irmãos, naquela que será a primeira de uma longa sucessão de mudanças através da Europa. Neste primeiro volume de uma trilogia, Canetti procura alcançar as lembranças mais recuadas, as que lhe definiram parte considerável do ser e se tornaram, elas próprias, matéria para sucessivas redefinições. Os livros, que cedo foram a forma primeira de relacionamento com o mundo, são um elemento basilar na construção de si próprio, mas é a língua, no seu sentido mais abrangente, que confere uma unidade a estas memórias, muito mais forte do que a organizada cronologia em que se apresentam. Não correspondendo à realidade, o gesto da faca rente à língua definiu a identidade do jovem Canetti de um modo mais inexorável do que qualquer facto real: os diferentes idiomas com que se confronta na família, a ânsia de aprender as letras e dar sentidos às frases, a fuga da Palavra (no sentido religioso), herança de gerações, a que acabará por ceder por não querer fugir da vastidão de mundos que procura nos textos, todos esses momentos justificam o título com precisão, configurando os passos essenciais da formação do autor. Tudo pode desmoronar a qualquer momento, sabemo-lo e sabe-o Canetti desde cedo: a morte do pai, quando o filho tinha apenas sete anos, as perdas afectivas impostas pela distância ou a violência da guerra. Se o equilíbrio se mantém, embora com consciência da precariedade, isso deve-se às palavras e ao modo como estas se relacionam, formando sentidos, garantindo a existência do mundo.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Time Out nº64, 17 Dez. 08)

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One comment

  1. Lá volto eu a fazer vénia aqueles que a merecem, e esses são os que dirigem pequenas editoras que por entre as amarras deste mercado dominado pelos grandes grupos e pelas grandes cadeias de retalho conseguem sobrevivir, sim sobreviver, permitindo a nós leitores “degostar” as melhores obras. Obrigado Campo das Letras, Quasi, Sextante….entre outras. Obrigado Jorge Araújo, Jorge Reis-Sá, João rodrigues….entre outros.
    Até sempre!

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