Héctor Abad Faciolince, Somos o Esquecimento Que Seremos, Quetzal

hectorabad

Aplicar ao indomável espaço da memória o filtro da literatura tem sido um gesto recorrente nos últimos séculos literários, com resultados que oscilam entre o monumento verbal e o registo que se perderá ainda mais depressa do que a memória que o originou. Num livro tão comovente como lúcido, Héctor Abad Faciolince reconstrói as memórias do seu pai, um médico que dedicou a vida à luta pela igualdade e pela justiça social e que acabou assassinado às mãos dos paramilitares colombianos. Héctor, o filho, cruza as primeiras recordações que guarda do pai com a formação da sua própria identidade, abrindo o texto com uma longa evocação da infância em Medellín.

A presença do pai é o vértice por onde o filho organiza a sua própria narrativa, mas onde o sentimentalismo podia ganhar terreno à literatura, a lucidez do narrador impõe-se, mostrando uma personagem venerada, generosa e muito amada, mas nunca uma sombra elogiosa. O pai do narrador é aqui lembrado pelas suas qualidades, mas sobretudo por tudo o que partilhou com o filho.

A memória, é sabido, é mais construção do que desfile factual e Héctor Abad confirma-o com um texto que lembra o passado, mas que tem o futuro como linha do horizonte: no verso de Borges que dá título ao livro está a certeza de que tudo se esquece, mas também a vontade de o evitar, missão mais nobre entre todas as vaidades humanas.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Time Out nº76, 11 Mar. 09)

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4 comments

  1. Este é um livro que vai para o meu cantinho das coisas maravilhosas e belas que o Homem ainda é capaz de produzir. Vai ficar junta da Montanha da Alma e da Sombra do Vento (e do Tom Waits que neste momento canta uma das suas lindas e misteriosas baladas no meu hi-fi).

    Durante a leitura vieram-me à cabeça várias imagens da minha própria infância e principalmente a alegria do meu pai no dia 25 de Abril. Pouco me recordo desse dia (tinha nove anos) mas tenho uma imagem clara da alegria do meu pai na sala a escutar a rádio, no meio da sala, onde a luz entrava pelas janelas abertas de par em par.

    Obrigado ao Héctor Abad por ter tido a coragem de escrever com esta ternura e alegria sobre o seu próprio Pai. Obrigado por ter escrito sobre a Esperança.

  2. O livro começou por chamar atenção, através da fotografia sépia da capa.É uma grande homenagem ao amor, à cumplicidade.Um livro comovente.Também senti esse fascínio quando li “Uma Pantera na Cave”, de Amos Oz e noutra perspectiva Fermin.

  3. E obrigado ao sr.Alexandre Gil pela sua sensibilidade, algo que começa a escassear, neste período conturbado da História humana.

  4. Foi por mero acaso que, numa rara ida a Lisboa, ouvi, no Pessoal… e Transmissível, uma conversa entre o Carlos Vaz Marques e Héctor Abad Faciolince.
    Quando cheguei a Lisboa procurei o livro na Fnac do Colombo mas não conheciam. Procurei na Bertrand, mas não tinham. No dia seguinte consegui encontrá-lo na Bertrand do Shoping dos Olivais.
    Li o livro de uma penada, com uma sofreguidão que raras vezes me acometeu (lembro-me de “A sombra do vento” me ter causado o mesmo comportamento).
    Fica um testemunho apaixonado de um leitor anónimo sobre um livro extremamente sensivel, feito por um escritor corajosamente lúcido que, 20 anos depois do assassinato do seu pai, consegue deixar uma mensagem de tolerância, mas não de compaixão e, fundamentalmente de esperança numa sociedade mais justa. Transcreva-se uma passagem de Antonio Machado, relacionada com a perspectiva de queda de Barcelona na Guerra Civil espanhola ” Ignora-se que a coragem é a virtude dos inermes, dos pacíficos – nunca dos assassinos – e que no fim as guerras são sempre ganhas pelos homens de paz, nunca pelos insitgadores das guerras. Só é valente quem se pode dar ao luxo da enormidade a que se chama amor ao próximo, e que é específicamente humana”.
    No fim, o autor pede que se prolongue um pouco mais a memória de seu pai, um Homem bom, através do nosso contributo solidário de partilha da recordação da sua contribuição para o desenvolvimento da Humanidade em geral, e de uma Colômbia oprimida, em particular. Héctor Abad Faciolince, conta comigo!

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