Uma Longa Viagem Com José Saramago

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O livro de João Céu e Silva, Uma Longa Viagem Com José Saramago (Porto Editora), resultado de dois anos de trabalho e de dezenas de horas de conversa entre o jornalista e o escritor, está a chegar às livrarias. Promete ser um livro essencial para conhecer melhor a personalidade do Nobel português, mas sobretudo para acompanhar a sua visão sobre o mundo, a literatura e a época que lhe coube viver.
Aqui ficam dois excertos dessa longa conversa, assim como duas das muitas imagens que integram o volume:

Deve ser um pouco trágico para quem viveu 85 anos de luta ter de se confrontar com o facto de que nada mudou tanto assim!

Não mudou tanto assim, não. Quando eu era rapazito ouvia muito dos meus – sobretudo à minha avó Josefa e também à minha mãe – um dito que, naquela altura, eu não entendia bem mas que me ficou e que hoje entendo: «Adeus mundo, cada vez a pior». Se já o diziam então, e certamente com razões, creio que não há nenhuma razão nem motivo para deixar de dizê-lo. Porque em muitíssimos aspectos o mundo está cada vez pior e há o suposto argumento infalível dos optimistas que dizem «realmente o mundo está mal» e depois acrescentam-lhe um «mas…» como se fosse a penicilina. Eu estive doente há poucos meses e não estaríamos aqui – ou você podia estar para conversar com a Pilar mas eu já não estaria – se a medicina não tivesse avançado e progredido como se tem verificado. Eu não estaria aqui, mas com doenças de muito menos gravidade da que tive de suportar morrem todos os dias milhares e milhares e milhões de pessoas que poderiam tratar-se com uma pastilha que para nós já é pura rotina mas que para eles seria a providência.

16pEssa doença amaciou o seu olhar perante o mundo?

Não, não. Deu-me uma espécie de serenidade pessoal e a consciência – que sempre tive ou pelo menos eu pensava que sim – que temos de morrer. Se os outros todos antes também morreram nós também morreremos, mas uma coisa é pensá-lo assim e outra é vê-lo diante dos olhos. E isso em lugar de criar ou fazer nascer em mim atitudes de desespero teve o efeito contrário. Eu tinha consciência da gravidade do meu estado, mas isso serviu-me para… Eu sempre tive uma tendência muito forte para a relativização das coisas e a doença levou-me a consolidar – não para um ponto de vista céptico, como tudo é relativo e não vale a pena a gente estar a preocupar-se muito. Não! – de outra maneira a aceitação sem resignação. Não há ninguém, a não ser que tenha fortes motivos para isso, que se resigne à ideia de que terá de morrer, mas a mim trouxe-me uma serenidade que meses passados – eu saí do hospital por volta do dia 20 de Fevereiro – se mantém. E esta serenidade é muito agradável.

23p

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