Henry Miller, Sexus, Ed. Asa

capasexus

Há livros que provocam um tal alarido fora das suas páginas que só quando o silêncio regressa são devidamente apreciados. De um certo modo, foi o que aconteceu com Sexus, o primeiro volume de uma trilogia (que viria a completar-se com Nexus e Plexus) que rendeu a Henry Miller os maiores insultos e aos seus editores uma série de perseguições censórias. As cenas de sexo, generosamente repartidas ao longo de toda a narrativa, assim o ditaram, mas reduzir Sexus a uma sucessão de acrobacias de cama ou a um compêndio educativo preparatório da revolução sexual é injusto e pouco interessante.

Ao enredo alucinante, que acompanha a paixão de Miller por uma bailarina de bordel, os conflitos inevitáveis com a mulher com quem está casado e as deambulações erráticas por bares, ruas e camas várias, subjaz um gesto que faz da escrita um método de reflexão sobre o mundo. Miller, que narra a história na primeira pessoa, está tão interessado em levar Mara, a bailarina, para a cama como em conseguir utilizar a escrita de um modo genuíno, sem os subterfúgios da literatura de salão.

Numa leitura fugaz, talvez o primeiro interesse seja mais óbvio, mas atentando na globalidade da narrativa, cenas de sexo obviamente incluídas, bem como o ritmo, a utilização dos diálogos e as divagações, percebe-se que todo o edifício textual é uma demanda sôfrega pela conversão da linguagem num gesto de autenticidade. O narrador Miller não quer entreter leitores ávidos de descrições quase gráficas, mas antes incorporar no seu texto as pulsões humanas mais instintivas e necessárias de um modo que torne escrita e vida tão próximos quanto possível. O resultado é de uma crueza atroz, laboriosamente alicerçada numa escrita que reflecte sobre o seu próprio curso, registando o automatismo dos instintos e a sua insondável beleza.


Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Time Out, nº77, 18 Mar.09)

Anúncios

2 comments

  1. De Miller li a “máquina do amor”a forma como descreve cada cena e lugar, transportam o leitor para a realidade da obra, ainda que seja imaginária, perfuma a imaginação dando asas a esta para deambular pelo parte preversa do nosso cérebro.

  2. Depois de olhar para a estante inúmeras vezes ao longo dos anos, comecei a ler o Sexus e foi uma enorme surpresa.
    Escrita descomplexada e sem vaidades. Pulsão verdadeira. Num tempo de rodriguinhos e do politicamente correcto do quotidiano, Miller é uma lufada de ar, não necessariamente fresco, mas seguramente autentico.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s