Entrevista com Ricardo Menéndez Salmón

ricardomsalmonRicardo Menéndez Salmon esteve em Portugal para promover A Ofensa, o primeiro romance de uma trilogia a que chamou ‘Trilogia do Mal’, publicado pela Porto Editora (que deverá publicar os outros dois títulos, Derrumbe e El Corrector, nos próximos meses). Com uma linguagem depurada e uma narrativa que procura centrar-se no essencial, afastando-se de dados históricos prescindíveis ou descrições pormenorizadas, A Ofensa decorre no palco da Segunda Guerra Mundial e acompanha as mudanças que se operam na vida de Kurt, um modesto alfaiate que se vê atirado para as fileiras da guerra, obrigado a abandonar os seus sonhos e a sua rotina. Depois do ataque a alguns soldados da sua companhia, o comandante de Kurt sitia uma aldeia francesa e acaba por ordenar o massacre dos seus habitantes, vingando desse modo os soldados mortos, e registando esse massacre através de um filme feito no local e no momento da dizimação colectiva. A partir daí, Kurt torna-se insensível, perdendo a capacidade física de percepcionar qualquer dor, conforto ou desejo e cortando os laços com as suas memórias pessoais, até ao dia em que essas memórias cobrarão o seu regresso sem qualquer contemplação perante a vontade de esquecimento de Kurt.
Depois da sua passagem pelo Literatura em Viagem, encontro que decorreu em Matosinhos, o autor de A Ofensa conversou com o Cadeirão Voltaire sobre o romance agora traduzido e sobre as linhas de fundo que orientam o seu trabalho literário.

A Ofensa começa por acompanhar um encontro entre a História e um quotidiano quase banal. Estes encontros, que poderíamos dizer que atravessam toda a cronologia da humanidade, são um território privilegiado para a literatura?
Creio que sim. Quase todo o meu trabalho literário se constrói em torno dessa dialéctica entre a História e as histórias dos indivíduos, os seus pequenos espaços e a sua intimidade. Quando comecei o romance, pensando na personagem central, o que queria era fugir de qualquer grandiosidade; queria criar um homem que fosse pequeno, no sentido de anónimo, de alguém com quem todos nos poderíamos identificar. Porque, de algum modo, todos nós poderíamos ser Kurt. E interessou-me perceber como seria o diálogo entre o seu pequeno mundo e uma coisa muito maior, sobre a qual não tem qualquer espécie de domínio. Esse conflito, essa dialéctica, são lugares dos quais a literatura se aproxima constantemente. E são lugares muito complexos do ponto de vista do conflito, que é um dos pontos centrais da narrativa. A mim, o conflito que me interessa é o ético.

Ainda que o enredo de A Ofensa se situe na Segunda Guerra Mundial, aquilo que lemos é a história de Kurt, o seu encontro pessoal com o horror. Esta narrativa podia ter outro cenário, temporal e espacial, ou não?
Sim, podia. É uma história que os leitores contemporâneos conhecem bem e que, de algum modo, vivem, ou ouvem, diariamente. Kurt podia ser um soldado actual, no Iraque. Um pouco como o filme No Vale de Elah [de Paul Haggis], em que um pai procura o seu filho e descobre que ele teve um encontro com o horror, no Iraque, transformando-se num pequeno monstro moral, alguém que perdeu a sensibilidade. Até certo ponto, sim, diria que não é relevante que a narrativa decorra na Segunda Guerra. Mas por outro lado, a Segunda Guerra assume uma importância grande para a nossa identidade contemporânea e para as questões que temos de colocar, entre outras coisas pelo facto de ter sido o momento que conduziu ao terror do Holocausto.

No fim da primeira parte do romance, o narrador coloca a si próprio algumas questões sobre o modo como as pessoas reagem ao mal, ao horror. Sendo quase todo o horror um produto directo do homem, esta também é uma reflexão sobre o que nos pode diferenciar, entre nós?
Sim. O meu trabalho procura reflectir profundamente sobre a questão do mal, do horror, e esse mal é sempre encarnado por figuras concretas, pessoas de carne e osso. Nunca senti a tentação de reflectir sobre o mal em abstracto, dando-lhe uma dimensão sobre-humana, porque estou perfeitamente consciente de o que o principal agente do mal ao lngo da história é o próprio ser humano. Há um romance de Roberto Arlt, Los Siete Locos [editado em Portugal pela Cavalo de Ferro], onde se faz uma afirmação poderosa em termos argumentativos, um pouco na linha das definições clássicas de Nietchze, “o homem é o animal que promete”, ou de Homero, “o homem é o animal que come pão”. E Arlt diz que “o homem é o animal que encontra no mal a justificação da sua passagem pela Terra”. De facto, não há nenhum outro animal na natureza que provoque aquilo a que chamamos o ‘mal’.
Por outro lado, essa reflexão está associada a outra coisa. Sempre pensei que a existência objectiva da maldade arrasta uma outra reflexão, sobre a existência da liberdade. A existência do mal tem como contrapartida aquilo a que poderíamos chamar o drama da liberdade, um pouco como Conrad o plasmou em O Coração das Trevas: uma pessoa pode ser má impunemente.

Daí o paralelo com Kurtz, personagem de Conrad?
Sim, a homofonia está lá…

Kurt é um homem sensível à expressão artística, que lê livros, que aprecia pintura e que se expressa através da música. E mesmo que não seja ele o responsável pelo massacre que despoletará a sua mudança, Kurt demite-se de reagir perante o que presencia, obrigando o leitor a abandonar a ideia algo romântica de que a arte se opõe à barbárie. Alguma coisa se opõe verdadeiramente à barbárie?
Eu acredito que sim, que há coisas que se opõem à barbárie. O facto de estarmos aqui os dois a conversar confirma que existem princípios de racionalidade, de consenso, de diálogo. À barbárie opõe-se a Razão. O problema é que essa Razão se exerce muitas vezes através de instrumentos que se alimentam da barbárie. Por isso não acredito que haja uma dimensão salvadora no conhecimento, por si só, e o mesmo é válido para a arte. Seria muito desejável que assim fosse… Às vezes creio que alguma coisa nos leva a pensar que, por sermos seres racionais, capazes de apreciar a beleza da música, por exemplo, que é uma coisa afinal tão insólita, alcançamos uma espécie de salvação.

Mas depois conhecemos os exemplos de tantos ditadores que eram autênticos melómanos…
Aí está! Essa identificação entre a grandeza intelectual, a percepção estética e a bondade é espúria, é uma falácia. Veja-se o texto de [Jorge Luis] Borges, em “Deutsches Requiem”, que descreve a rotina de um comandante de um campo nazi, que se levantava de manhã cedo, barbeava-se, vestia-se, brincava com os seus filhos, punha a tocar o Requiem Alemão, de Brahms e de seguida mandava acender os fornos crematórios. Não, não creio que o conhecimento ou a arte por si só nos livrem do mal, de cometer actos de barbárie. Mas sim, acredito que há respostas perante a barbárie: a Razão, o diálogo, o consenso.

E no entanto, isso nem sempre é suficiente, por muito que continuemos a reflectir sobre o tema…
Quando A Ofensa saiu em Espanha, coincidiu com a afirmação de uma espécie de movimento, ou de tendência, a que os críticos chamaram Geração Nocilla [em português, seria qualquer coisa como ‘Geração Tulicreme’], por causa de um romance de Agustin Fernandez Paz, Nocilla Dream, e que se baseia muito na linguagem do cinema e numa certa ideia de pós-modernidade, muito fragmentada. E A Ofensa foi classificada como um romance moderno, ou tardo-moderno, porque as questões de fundo que coloca pertencem efectivamente à tradição da modernidade. Sobretudo a questão principal, a mesma que Adorno e Horkhemeir explanam na Dialéctica da Ilustração, ou seja, como é possível que os movimentos emancipatórios da Razão tenham tido como corolário, no século XX, uma razão instrumental que teve como destino os campos de concentração nazis ou o Gulag soviético? Em que momento do caminho descobrimos que o progresso moral não nos dava garantias de nada? Essa pergunta parece-me fundamental e continua sem resposta, e aí a literatura e a arte têm um campo infinito de reflexão.

Na segunda parte de A Ofensa, insinua-se uma certa esperança de que o amor será capaz de uma redenção, apagando o horror do corpo insensível de Kurt. Mas com o avançar do livro, essa esperança não se concretiza. Isso é uma contingência do enredo, deste romance concreto, ou é uma tese sobre a impotência do amor face ao mal e às profundas marcas que deixa?
É interessante que coloques a pergunta desse modo, porque quando escrevi A Ofensa tinha uma percepção mais negativa sobre a possibilidade do amor enquanto instrumento de salvação do que a que tenho hoje. E na realidade, com o avanço da trilogia, o amor vai desempenhando um papel cada vez mais afirmativo, até ao ponto em que, no último romance, El Corrector, se converte realmente em instrumento de salvação, uma espécie de reduto contra a hostilidade. Mas neste livro, sim, até certo ponto é contingente; dentro da peripécia narrada, era necessário que o amor não fosse salvador.

Na última parte, a memória afirma a sua importância, não como uma herança que garanta a nossa identidade ou a nossa dignidade, mas antes como algo que obriga Kurt a enfrentar os seus fantasmas sem qualquer protecção. A memória também pode ser uma imposição, capaz de destruir aquilo que pensávamos ter adquirido?
O que eu queria era reflectir sobre uma espécie de certeza que tenho, a de que uma pessoa pode querer deixar para trás o que viveu, apagando-o totalmente, mas o que vivemos obstina-se em não se deixar ficar para trás. Kurt afasta-se do que viveu e experienciou, mas não consegue apagá-lo. E é a memória que lhe devolve aquilo de que ninguém consegue fugir. Por isso quis que o romance acabasse com uma frase em alemão, porque a língua materna de cada um é uma das memórias mais intensas, impossíveis de apagar. O passado não pode ser abolido.

One comment

  1. Oh, mon Dieu, j’ai trouvè un vrai trèsore!

    Incrível como havia tanto tempo em que não havia eu encontrado um blogue tão inteligente.
    Não conheço o livro, e do autor, se não me falha a memória, só conhecia comentários esparsos, de quem já o leu. No Brasil, ao que me parece, Salmon é praticamente um desconhecido.

    Porém, fiquei encantado com o texto, que, apesar de longo (ou, sob um certo aspécto, devido a isso), me foi de grande valia. As opiniões de Salmon são verdadeiramente coerentes com o espírito de nossa época, nos aspéctos positivos é claro.

    Como Nietzche (eu já tinha lido a frase), eu acredito que o homem é mesmo “o animal que promete”, e cito ainda um provérbio cubano: “Quem é que sabe o que poderemos ser?”
    Pois é óbvio que, nos tempos em que Goethe vivia, só o que se poderia prever seria um progresso cada vez maior de toda a humanidade, mas do mesmo país em que saiu a poesia de Goethe, saíram as botas dos nazistas.

    Quem é que pode saber o que estamos a prometrer agora?

    E, para finalizar, devo confessar que, malgrado eu saiba que deve de ser uma ingenuidade minha (ainda tenho muito pouca idade para saber), sempre penso que quem é amigo dos livros será incapaz de me fazer mal. Uma vez li num romance do Milan Kundera que este pensamente veio à mente de uma rapariga enquanto ela observava um homem lendo um livro no banco de uma praça, era uma personagem da história, e imediatamente eu me identifiquei com ela…

    Espero que possamos nos tornar um dia frandes amigos.

    Saudações do Brasil.
    C’est avec beaucoup de plaisir que je te lis.
    Au revoir,
    Hakim.

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