Museu de Arte Popular

A decisão esteve suspensa durante algum tempo, o que me deu esperança, mas recentemente o Ministro da Cultura voltou a anunciar o Museu do Mar e da Língua Portuguesa e a sua pretensão de o instalar no espaço do Museu de Arte Popular. Relembremos que o Museu de Arte Popular (MAP) está encerrado ao público desde 2006 para obras de recuperação. Na verdade, as anunciadas obras, de que o Museu, de facto, precisava, parecem ter sido um pretexto para encerrar de vez um espaço com o qual boa parte da nossa classe política nunca soube lidar. Recuperemos alguns factos, lembrando sempre que esta não é a primeira vez que se tenta encerrar o MAP.

O MAP é o único pavilhão sobrevivente da Exposição do Mundo Português, de 1940, e nele se instalou uma colecção de arte popular portuguesa onde se contam inúmeras peças únicas e cuja lógica se estruturou enquanto colecção museológica. Para além disso, o edifício do MAP foi projectado pelo Arquitecto Veloso Reis Camelo (e posteriormente adaptado a museu pelo Arquitecto Jorge Segurado) e nele trabalharam artistas como Tomás de Melo (Tom), Estrela Faria, Manuel Lapa, Eduardo Anahory, Carlos Botelho ou Paulo Ferreira, cujas contribuições podiam ser apreciadas nos frescos que deram ao MAP uma das suas mais-valias. A sua definição arquitectónica, em estreita ligação com a concepção museológica, bem como as qualidades da colecção que albergava, fizeram dele um museu recorrentemente visitado por especialistas estrangeiros que ali encontraram um exemplo de valor incalculável (nem tudo é convertível em cifrões, ainda que os nossos governantes possam não o saber). E as visitas de portugueses e estrangeiros comprovaram, ao longo dos anos em que funcionou, o interesse que o Museu despertava junto do público.

map

Depois de anos de degradação física, consequência do manifesto desinteresse de secretários e ministros da cultura, o MAP fechou parcialmente para obras (digo parcialmente porque o trabalho do Museu continuou pelo menos até Dezembro de 2007, quando se inaugurou uma exposição feita pelo MAP, pelo Museu de Arqueologia e pela Câmara Municipal de Viana do Castelo no espaço do Museu de Arqueologia), facto que foi rapidamente aproveitado pelo Governo, ainda no mandato de Isabel Pires de Lima à frente da pasta da Cultura, para anunciar a deslocalização da colecção para as caves do Museu de Etnologia (onde ficou encaixotada e inacessível ao público, até porque é difícil que dois museus caibam num só…) e a ‘conversão’ do espaço em Museu do Mar e da Língua Portuguesa. E a partir daqui, várias perguntas se colocaram, com a desvantagem de terem sido colocadas por cidadãos preocupados com o futuro do MAP e não, pelo menos de forma insistente e corajosa, pelos nossos ‘representantes’ políticos na Assembleia da República, confirmando que as preocupações dos cidadãos pouco importam para quem vai fazendo do património comum aquilo que lhe apetece. Primeira pergunta: qual é o objectivo de desmantelar um Museu que alberga uma colecção única e que recebeu, através do Estado Português, dinheiros europeus para a sua recuperação? Alguns disseram que o Museu estava às moscas e que já não seria interessante para os visitantes. A isso, é preciso responder com factos: o Museu teve menos visitas nos últimos anos do seu funcionamento porque parte considerável das suas salas estava encerrada ao público (as salas metiam água, o tecto ruiu e as anunciadas obras governamentais iam tardando, ano após ano, a chegar, parecendo que o Governo estava à espera que o Museu caísse de podre para avançar); durante o tempo em que todo o Museu esteve aberto ao público, as visitas nunca faltaram, as escolas eram presença assídua e os turistas tinham o MAP como ponto obrigatório na sua passagem por Lisboa. Quanto aos dinheiros europeus, ainda estamos para saber que desculpa terá dado (ou estará a pensar dar) o Estado perante as instituições europeias que financiaram obras de recuperação do Museu de Arte Popular, e não obras de recuperação de um edifício que virá a ser uma coisa que não o Museu de Arte Popular. Mas, mantendo a boa tradição comunicativa entre governantes e cidadãos, talvez nunca o saibamos.
Segunda pergunta: alguém, no Ministério da Cultura, tem noção real do que é a colecção do MAP, do valor arquitectónico do seu edifício, que marca o final do Modernismo português, da importância dos frescos que o decoram, testemunho essencial do Segundo Modernismo, e da imprescindibilidade de oferecer aos visitantes e estudiosos todos estes elementos, organizados como o foram e coesos no seu conjunto? Se não tem, seria melhor que investigasse, porque é triste estarmos entregues à ignorância governamental. Se tem, então imagino que não estamos a salvo de ver, suponhamos, o Museu de Arte Antiga transformado em Centro Multimédia Para a Compreensão da Rota das Especiarias, ou o Grão Vasco convertido em Open Space Interactivo – Os Portugueses Chegaram à Índia.
Terceira pergunta, algo transversal, mas ainda assim pertinente: precisamos urgentemente de um Museu do Mar e da Língua Portuguesa? Não estamos a meio de uma crise, não está a Cultura sem dinheiro, não temos património a precisar de investimento? Porque de repente, parece que os museus portugueses não têm falta de pessoal, que o património está todo em boas condições e que muitos vestígios da língua que agora se quer transformar em museu não estão a apodrecer nos arquivos e bibliotecas do país. Mais: alguém viu com atenção o projecto do Museu do Mar e da Língua? Quando ele foi apresentado à imprensa, tornou-se claro que o edifício para o albergar podia ser qualquer um. Suportado essencialmente por computadores e outra parafernália multimédia, o dito Museu tem tanta justificação no espaço do MAP como noutro sítio qualquer (ou melhor, tem mais justificação noutro sítio qualquer, pelo que se disse até aqui).
Com estas perguntas sem resposta clara, abre-se a porta às conclusões opinativas. Pela minha parte, estou cada vez mais convencida de que tudo isto, desde o momento em que o Governo se demitiu de ir recuperando o Museu até ao anúncio do Ministro da Cultura, tem mais a ver com uma vontade antiga de acabar com o único vestígio da Exposição do Mundo Português do que com uma real necessidade de criar um Museu do Mar e da Língua. E porquê? Porque as almas que nos vão governando têm grandes dificuldades em perceber que a cultura e o património não arrastam o seu contexto histórico como se de uma praga alastrável ao presente se tratasse. Sabemos que a Exposição do Mundo Português se realizou durante a ditadura de Salazar, mas se isso é suficiente para se destruir um Museu que não se dedica à ditadura de Salazar e sim à produção, ao imaginário e às vivências de um país, então destruamos tudo o que se ergueu durante os anos negros do fascismo. Será isso solução para lidarmos com a nossa memoria colectiva? Ficaremos mais ricos se avançarmos com uma picareta sobre museus e monumentos da época? Acho que não. E tenho pena que deputados e outros representantes políticos não tenham a coragem de reflectir sobre isso; a direita, talvez com medo de uma colagem aos tempos do senhor que caiu da cadeira, não fala muito sobre o assunto, e a esquerda (entristece-me dizê-lo, porque é lá que voto desde que tenho idade para votar), alardeando o seu silêncio perante algo que acredita ser unicamente uma obra do antigo regime, só mostra a sua ignorância, não compreendendo que o facto de o MAP ser o resultado de uma ideologia que repudiamos não só não pode justificar a sua destruição como pode ser um elemento fundamental para se estudar e compreender o período em que foi construído. Não é por acaso que os poucos Museus semelhantes que sobreviveram pelo mundo fora são hoje escrupulosamente preservados, muitas vezes por Governos que, situando-se no espectro político oposto àquele que os viu nascer, não são néscios ao ponto de fazer tábua rasa do seu passado.
Ainda estamos a tempo de recuperar o MAP. Assim o Governo o entenda, em vez de persistir num disparate de consequências nefastas para a Cultura e a História portuguesas.

Aproveito para sugerir uma visita a este blog, que Catarina Portas iniciou e ao qual se juntou Rosa Pomar. Aí podem acompanhar-se as dililências que têm sido feitas para evitar o fim do MAP (nos últimos anos, já passaram por um abaixo-assinado que o Governo decidiu ignorar), conhecer um pouco da sua história e reflectir sobre todo este processo.

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5 comments

  1. Muito bom Sara.
    A solução tem de ser não desistir de lutar pelo MAP, pela sua colecção, pelo seu edifício, pela sua importância no contexto de uma cultura cada vez mais urbanizada e pós-moderna (sem que isso seja ofensa ou menosprezo – pelo contrário, é na diversidade que nos entendemos).

  2. É necessário e urgente divulgar a importância e o valor daquele edifício para as pessoas em geral. Um exemplo único onde a arquitectura, a pintura e a escultura se conjugam de forma impar. A sua temática justifica-se desde a Exposição do Mundo Português onde representavam parte da Secção de Vida Popular. O Museu nasce como resultado de várias exposições que o SNI desenvolveu desde 1935 e abre em 1948.
    O edificio deverá também fazer parte do conteúdo museológico e todo o conjunto considerado UM MUSEU, vamos esperar que isso aconteça.

  3. Tenho 61 anos. Á 50 anos atrás meu avô levou-me a este museu. Á 30 levei eu a minha filha. Conseguirá ela mostrar este belissimo museu ao filho??? Espero que sim.
    Um abraço.
    FT

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