Armadilhas da memória: Uma Aventura, anos depois

Aquele lugar comum sobre os regressos aos locais onde fomos felizes pode ter um violento fundo de verdade, sobretudo se não fomos tão completamente felizes como um dia quisemos crer. À conta de uma constipação, com direito a febre, canjas e chás variados, vi-me fechada em casa com mais tempo do que o habitual, tempo que aproveitei para fazer algumas leituras que as obrigações dos ‘dias saudáveis’ não tinham ainda permitido. E foi assim que mergulhei na leitura do número 51 da colecção Uma Aventura, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (Editorial Caminho).

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Uma Aventura na Amazónia revelou todas as fragilidades que os livros da colecção sempre tiveram mas que, graças à sua maior força – a identificação com uma ou mais personagens por parte do leitor juvenil, não se tornaram óbvias antes de uma certa idade. A fórmula de Uma Aventura mantém-se: os cinco amigos (e os dois cães, que nesta aventura ficaram em casa) partilham uma inquietação, uma desconfiança ou uma hipótese de descoberta (com frequência, como neste volume, associada a uma viagem), e a aventura logo começa a desenrolar-se, quase sempre envolvendo o imprescindível perigo e o desmascarar de algum/ns malfeitor(es). Só que tudo o que há vinte e tal anos se tolerava graças à tal identificação com os protagonistas e à vontade de descobrir a progressão do enredo, agora surge sem encobrimentos: a linguagem, por vezes básica de tão simples, não cria margem para inquietações narrativas ou surpresas semânticas; e o enredo, à força de ter de caber no espaço regulamentar e na estrutura que se repete em todos os livros, tem momentos confrangedores de tão forçados (as coincidências que permitem que os amigos se encontrem sempre ‘casualmente’ nos locais onde se encontram os malfeitores, os segredos ou a chave para sua resolução são disso exemplo). Nada mudou em Uma Aventura, com excepção da tecnologia que passou a ser usada pelas personagens (há vinte e tal anos, um telemóvel seria, por si só, um mistério digno de um volume), e isso estende-se à estrutura, ao trabalho em torno da linguagem e ao desenlace. Será essa imutabilidade a garantir o sucesso da colecção, geração após geração, mas são as características que a incorporam o motivo pelo qual a leitura dos livros não aguenta o passar dos anos e a bem vinda maturidade, ao contrário, por exemplo, de Os Cinco, de Enid Blyton (e quem cresceu com ambas as colecções percebe o motivo da comparação). Isto, claro, não faz de Uma Aventura um inimigo do intelecto, não apaga as boas recordações que possamos ter de uma ou outra história (eu terei sempre Uma Aventura em Lisboa como marco, não tanto pelo aspecto literário…) nem anula o entusiasmo com que sucessivas gerações de leitores acompanham cada novo volume. Mas confirma que os clássicos são sempre mais do que leituras marcantes da infância e da juventude, permanecendo muito depois disso sem mácula estilística ou narrativa.

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