O Bibliotecário Ambulante

Aproveitando o balanço do I Encontro Internacional de Bibliotecas Itinerantes, que decorreu na Batalha, feito pelo Nuno Marçal, bibliotecário ambulante de Proença-a-Nova, aqui deixo o artigo que fiz para a Ler a partir do seu trabalho. Para mais fotografias, recomenda-se uma visita ao seu blog, O Papalagui.

bibliomovelnova

As citações sobre bibliotecas podiam encher várias páginas desta revista, a começar por Jorge Luís Borges e o seu paraíso em forma de estante, ou por Albert Manguel e a sua paixão devota pelos livros. Mas é com Umberto Eco que melhor se compreende o que será contado em seguida. Num volume discreto sobre A Biblioteca, disse o autor italiano que “nós não nos apercebemos até que ponto o instrumento biblioteca continua ainda a ser uma coisa desconhecida para a maioria das pessoas”. Quem viva nas grandes cidades, ou mesmo em vilas mais distantes dos centros urbanos, poderá discordar, dizendo que só desconhece quem quer. Mas longe da rede de bibliotecas municipais que floresceu nos últimos anos, há aldeias que só vemos nas reportagens televisivas (sobretudo se os temas forem o isolamento e a desertificação) onde a biblioteca é um conceito tão estranho como a banda larga. E aí, a única forma de colocar a biblioteca ao serviço das populações é cumprir o provérbio que fala da montanha e de Maomé.

Com as carrinhas da Fundação Calouste Gulbenkian a fazerem parte de um passado de boa memória, as bibliotecas itinerantes têm renascido aos poucos, quase sempre associadas a pólos fixos em cidades próximas. É o caso da Biblioteca Itinerante de Proença-a-Nova, resultado da candidatura autárquica a um projecto contra a exclusão social que angariou dois bens essenciais para a freguesia: um posto de saúde móvel e uma biblioteca. E só quem não perceber o quão essencial pode ser uma biblioteca no dia a dia de quem só acede ao mundo através da televisão estranhará a conjugação da saúde com os livros. Em 2006, a biblioteca móvel começou a rodar, conduzida por Nuno Marçal, que não se importa que o apresentem como bibliotecário e motorista. Nascido em Castelo Branco, há trinta e quatro anos, Nuno Marçal terminou o curso de Sociologia e decidiu arriscar uma pos-graduação em Ciências Documentais, o que acabou por levá-lo ao quadro da Biblioteca Municipal de Proença-a-Nova, onde está há sete anos. De terça a sexta, o condutor desta carrinha preciosa faz o percurso pelas aldeias locais, com paragens regulares em escolas primárias e centros de dia, mas igualmente nos largos onde a população se junta ou no único café em quilómetros, levando livros, revistas, jornais, DVD’s e o acesso à internet a algumas centenas de pessoas que, de outro modo, jamais teriam contacto regular com a leitura. Entre os utentes, há pessoas que recuperaram o hábito antigo de ler romances, leitores ocasionais de jornais, estudantes que procuram ajuda para uma consulta bibliográfica exigida pela escola e até pessoas que nunca souberam ler, mas que ali ganharam o hábito de folhear revistas sobre pesca e caça, sobre moda e costura, sobre apicultura ou jardinagem. E bastam-lhes as imagens para conhecerem o que até aí era desconhecido, copiando moldes para vestidos ou aprendendo uma forma mais proveitosa de dispor as colmeias no terreno disponível. Escolhidos de entre o fundo suportado pelas estantes, os livros são emprestados até ao regresso da carrinha ao mesmo lugar, quinze dias depois. Já os jornais e revistas são consultados no momento, muitas vezes ao balcão do café local, onde Nuno Marçal os deposita assim que chega para que os passantes os folheiem à vontade e comentem as notícias. Para usar o computador, basta entrar na biblioteca. Nada se impõe, nem sequer as horas do conto; mas havendo audiência e vontade, o bibliotecário tira um livro da estante e lê-o em voz alta. E há quem o ouça.

Nas escolas e centros de dia que são paragens certas do percurso, a biblioteca estaciona à porta. Os mais novos entram na carrinha e têm os jogos de computador e a internet como ponto de atracção central, mas nem por isso desdenham os livros. Os mais velhos, com a mobilidade reduzida a exigir sossego, recebem o bibliotecário e uma das suas ‘maletras’ num espaço de convívio, lêem revistas, ouvem ler as histórias dos outros e, cada vez mais, contam as suas próprias. De tal modo que o bibliotecário tem juntado um repertório enorme de mezinhas, anedotas e acontecimentos passados, destinados ao esquecimento se uma carrinha cheia de livros não tivesse parado à porta dos seus portadores. No verão, a biblioteca faz-se acompanhar de animação extra: no ano passado, foi um acordeonista que anunciou a chegada da carrinha aos largos de cada lugar, e as desgarradas marcaram presença nas aldeias. Este ano ainda não se sabe, mas alguma coisa aparecerá. E depois há as histórias pessoais que Nuno Marçal tem acumulado nestes três anos, um manancial de momentos que o fizeram perceber que trabalhar como bibliotecário ambulante em terras isoladas é também ser o confidente de algumas mágoas, o mensageiro de notícias para a família que está emigrada (mas que responde, no Messenger, às saudades dos que ficaram, mesmo que esses nunca tenham imaginado que um computador lhes poderia devolver o contacto com quem está longe) e até o ajudante num momento de aflição doméstica, em que uma lâmpada inacessível ou um fusível queimado precisam de ser trocados. As imagens que regista no seu blogue, opapalagui.blogspot.com, são dignas de observação, mas mostram que a história das mil palavras não é para aqui chamada. A senhora que regressou à aldeia e vive isolada na casa da infância tem na chegada da carrinha um dos seus momentos essenciais: os livros e os filmes que requisita impedem-lhe a solidão total até à ronda seguinte, duas semanas mais tarde. E o senhor que se inscreveu num centro de emprego, esperando que a crise não o impeça de recuperar a vida que tinha, não saberia utilizar um computador se o bibliotecário ambulante não o tivesse ensinado, coisa que nunca se esquece de agradecer com e-mails regulares. Se o paraíso é ou não uma espécie de biblioteca, como Borges acreditava, ainda é cedo para saber. Mas nas aldeias de Proença-a-Nova, a biblioteca é uma espécie de paraíso; sem querubins louros ou potestades com harpas melodiosas, é certo, mas com histórias, descobertas, conversas à desgarrada e um bibliotecário que vem de longe, pelos mesmos caminhos que trazem o posto de saúde móvel, e chega com livros nas mãos.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Ler, 80, Maio 09)

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4 comments

  1. Olá Sara!
    O encontro da Batalha pode ter sido o 1º passo de uma caminhada que conduza as Bibliotecas Itinerantes ao protagonismo e importância que já tiveram.
    A herança das Itinerantes da Gulbenkian é pesada, mas aqui estamos, não para fazer história, mas com orgulho fazer parte de uma história, que ainda hoje manifesta a sua influência, mesmo passado 50 anos.

    Quanto ao teu excelente artigo, ele relata fielmente o dia de uma “Carrinha dos Livros”, com palavras carregadas de sentimento e que nos transporta pelas curvas e contra-curvas dos seus percursos por terras e gentes de Proença-a-Nova.

    Saudações Bibliotecárias-Ambulantes

    PS: Espero que um dia possas vir experimentar ao vivo e a cores as andanças da Bibliomóvel.

    Fica Bem

    Nuno Marçal
    Bibliotecário-Ambulante

  2. Obrigada, Nuno!
    E sim, a visita fica combinada, mas com menos calor (e com Vomidrin na carteira, que os enjôos de biblioteca ambulante devem ser iguais aos de carro).

    Abraço,
    Sara

  3. Vivam as bibliotecas itinerantes; vivam as carrinhas com estantes e livros!
    Descontando uma vizinha simpática que me dava revistas ilustradas, ultrapassadas, e livros com imagens para colorir, o meu primeiro e vastamente prolongado comércio com literatura e os livros, foi-me proporcionado pelas aguardadíssimas e misteriosas carrinhas da Fundação Gulbenkian…
    Talvez as coisas sejam diferentes agora, talvez; mas haverá sempre algures, insuspeitavelmente, uma criança para quem a existência de uma biblioteca itinerante fará toda a diferença.

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