Visitas no Cadeirão

Pela segunda vez, deixo o Cadeirão entregue às visitas. O texto é de Pedro Moura, autor do Ler BD e investigador na ampla área da banda desenhada e territórios contíguos. Desta vez, a escrita passa pela reflexão em torno de dois livros dedicados à literatura infantil. Fiquem com ele.

Children’s Literature. A Reader’s History from Aesop to Harry Potter. Seth Lerer (University of Chicago Press, 2008)

A Infância é um Território Desconhecido. Helena Vasconcelos (Quetzal, 2009)


childrenliterature hvasconcelos

A literatura infantil continua a ser uma enorme vexata quaestio, uma vez que não se trata propriamente de uma divisão literária similar ou afim à do género (a qual jamais, em si mesma, é uma questão terminada), e que oscila tanto entre os pólos da criação (intenção do autor) e da recepção (intenção do público) como da sua capacidade em lançar metástases noutros territórios externos à literatura, mas complementares a ela pelos caminhos daquilo a que se dá o nome, mais ou menos vago, de “mundo da fantasia” ou “do imaginário”.

As Viagens de Gulliver e Robinson Crusoe (e, até certo ponto, e mais erroneamente, o Quixote), por exemplo, são livros “para adultos” mas que foram repescados pela tradição “para a infância”; as Alices de Carrol são livros “para crianças” mas cujas naturezas permitem um fruto, assombroso, nas mãos dos adultos… A partir destes textos-modelo poder-se-ia fazer expandir essa questão, que muitas ramificações ganha, à medida que são colocadas à nossa consideração. É preciso tomar em conta que a “literatura infantil”, enquanto espectro de produção de imaginários, tem uma existência bem mais dispersa e difusa do que a literatura tout court (entendida enquanto tal). Ela existe para além da “coisa literária” (ou literariedade), o que implica que não são suficientes para a sua apreciação os instrumentos precisos da teoria literária ou da narratologia, mas é necessário antes aceder-se a outras disciplinas. Aquilo que há décadas ou séculos seria considerado complementar a esta literatura (as suas ilustrações mais ou menos inerentes, existentes nas primeiras edições ou subsequentes, as variações populares, o “merchandising”, os jogos relacionados, etc.) é-lhe hoje parte intrínseca, mormente com o desenvolvimento de várias tecnologias que são suporte desse mesmo imaginário alargado.

Não obstante, ela é, enquanto estreito ramo disciplinar das ciências humanas, objecto de escrutino académico, inclusive em Portugal, país no qual a literatura infantil peca, a meu ver, por três ordens de problemas: a não-implantação de uma tradição perene (livros que sobrevivam às gerações para as quais foram criadas), uma produção algo debilitada, se não hoje em quantidade pelo menos em qualidade (de escrita, de ilustração, de edição, de tradução, de preço; salvo raríssimas excepções), a ausência de uma mais ampla plataforma de discussão (que garantisse quer a continuidade quer a qualidade). Uma contribuição qualitativa a nível académico a essa questão é aquela levada a cabo pela revista e-fabulations/e-fabulações, afecta à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e nos vários cursos presentemente existentes dedicados a esse campo.

Um dos maiores entraves a esta situação é a sobrevivência de uma crítica feito por Natércia Rocha: “a preocupação didáctico-moralista persiste em asfixiar a obra a literária para crianças, impondo-lhes o desempenho de funções que não são exigidas ao trabalho literário para adultos”. Esta é uma razão que havia sido exposta em Breve história da literatura para crianças em Portugal, livro o qual, sendo de 1984, ainda hoje se mantém largamente actual, surpreendendo quer pela sensibilidade da autora a todas as camadas, a que chamámos acima metástaticas, relativas ao corpo desta literatura, quer pelas suas considerações alertas àquilo que se viria a consolidar no futuro, hoje nosso presente, senão mesmo parte do passado.

Ora a atenção quer de Seth Lerer quer de Helena Vasconcelos a este estranho “corpo literário” está precisamente em consonância para com a dimensão estética, literária, livre dos textos propostos e discutidos por cada um dos autores, e menos na procura da manutenção de um princípio educativo pétreo.

Children’s Literature. A Reader’s History from Aesop to Harry Potter, do professor norte-americano Seth Lerer, demonstra de um modo amplíssimo (impossível sê-lo cabalmente, todavia) que a “invenção” da infância se reveste de muito mais gradações do que aquelas usualmente discutidas. Partindo de uma reconsideração do papel social da criança na antiguidade clássica (grega e romana; Lerer apresenta-se desde logo como limitando-se primeiro às tradições europeias, e depois anglófonas, se bem que hajam incursões noutras esferas), o autor constrói um mapa organizado cronologicamente que nos vai demonstrando as sucessivas transformações, indissoluvelmente aliadas, dos conceitos de “criança”, “educação”, e dessa literatura especializada. Esopo, Coménio, a viragem puritana Locke e Rousseau, o Robinson Crusoe de Defoe, as etapas vitorianas e eduardianas da literatura britânica, o início da literatura americana, o nonsense, a literatura infantil “no feminino”, a dimensão comercial, e a contemporânea “Idade Irónica” são apenas algumas das pedras de toque discutidas neste livro. O objectivo do livro é duplo: por um lado, providenciar uma súmula organizada de todo um corpo de saberes desenvolvidos nas últimas décadas em áreas tão distintas como os estudos literários, a história marxista e social, a pedopsicologia, e a crítica pós-colonialista e o feminismo convergindo sobre um objecto mais ou menos coeso; por outro, garantir a partir dessa convergência uma perspectiva pessoal – Lerer indica de quando em vez pequenas anedotas da sua vida de leitor (para si mesmo ou para o seu filho), para iluminar uma dada questão; nunca chegando à dimensão de um Alberto Manguel ou de um Villa-matas, porém – e informada, que nos obriga a tomar as suas lições não enquanto dado adquirido ou indiscutível, mas precisamente como matéria digna de argumentação. É um livro, portanto, que tanto servirá a leitores académicos como a “amadores”.

Tecendo cada capítulo numa época histórica concisa, e apresentando quais as leituras que as crianças desses tempos faziam, e que função ou relação essas leituras estabeleciam com os seus papéis sociais, Lerer constrói mais do que uma mera história dos livros, uma história social com os livros ou que esses livros ajudaram a consolidar. Nadas disso obsta, naturalmente, a que o autor, por vezes de uma forma demasiado poética, recorrendo a trocadilhos sobre os títulos ou os elementos das obras discutidas (“Todos os quintais se tornam ilhas-império”; “um livro é uma canoa”, etc.), a constituir ligações e elos de continuidade entre as épocas, ou de consubstanciação genérica no interior de cada época. De objectos “puramente literários” – de A Pilgrim’s Progress a Robinson Crusoe -, passando por livros que vivem numa relação estreme com as suas ilustrações – Alice, Oz, O Vento nos Salgueiros – a outros que vivem noutras relações mais contemporâneas com a imagem – Harry Potter -, até “pictures books” – como Where the Wild Things Are (que não se percebe o porquê a ausência da sua tradução no nosso país, situação talvez corrigida dada a próxima estreia d aversão cinematográfica de Spike Jonze) – Lerer constrói um mundo muito, muito largo.

Atravessando mais de 2000 anos, Lerer consegue criar uma ideia de um território em permanente expansão e transformação, sobretudo pela nossa capacidade em reavaliar o passado e repescar ideias ou modelos perdidos, que jamais se conhecerá na íntegra, mas que nos provoca uma insubmissa e interminável determinação em o sondar.

A Infância é um Território Desconhecido tem um perfil muito diverso, mas o próprio título aponta desde logo ao seu problema de afirmação. É um título enganador.

Helena Vasconcelos apresenta-nos aqui um breve livro que segue leituras analíticas de um punhado de livros, que não necessariamente de “literatura infantil”, mas que de um modo diverso e muito pertinente nos farão pensar na ideia de “infantilidade”, “criança”, “inocência”, “crescimento”, e outras questões afins. Os livros são os seguintes: Peter Pan, de J. M. Barrie, Alice, de Lewis Carroll, Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, Morte em Veneza, de Thomas Mann, Lolita, de Vladimir Nabokov, Tom Sawyer e Huckleberry Finn, de Mark Twain, O Senhor das Moscas, de William Golding, Expiação, de Ian MacEwan, entre outros, como a saga de Harry Potter ou contos tradicionais e suas versões (o Capuchinho Vermelho nas suas várias formas, de Perrault a Angela Carter). Se apresento com alguma exaustão esta lista é porque se trata da decisão da autora num grupo de leitura que coordenou e na base do qual elaborou esta obra. Como é natural, as notas da Helena Vasconcelos não se prendem somente a uma sumária análise narratológica ou literária das obras em questão, mas passam por uma mescla de abordagens biográficas e psicológicas dos seus autores, um cômputo no interior da obra desses mesmos autores ou de outros trabalhos análogos ou pertinentemente comparáveis, e até mesmo reminiscência pessoais da autora, que servem para tornar a dimensão humana o mais nítida possível.

Esta lista abre uma ideia forte, pois voltando à ideia do início do nosso texto, em que se aponta o quão complicada é a decisão de circunscrever a ideia de “infância” através da literatura neste ou naqueles textos, a autora faz essas diferenciações dissolverem-se pela aproximação dos seus títulos. Há, portanto, menos a ideia de perseguir uma noção mais ou menos estipulada, mais ou menos canónica, de “obras da infância”, do que recriar uma “ideia da infância” através dessas obras. Acreditamos que tenha sido uma linha perseguida de vivo interesse e, mais importante, producente na criação de linhas de força e de interpretação, de recriação de relações literárias, de abertura do próprio campo da literatura.

No entanto, aí reside o seu problema, digamos, estrutural. Se este livro houvesse sido proposto num quadro de maior humildade – precisamente aquilo que ele é, um conjunto de notas fruto de um ciclo de leitores – este livro teria ganhado uma fortaleza maximal. As abordagens, tendo em conta o seu carácter ora propedêutico, ora enciclopédico, ora moldados para levar ao seu fim – uma re-apreciação do conceito de “infância” (quer a mítica quer a pessoal, de cada um) -, não podem jamais pensar em ser mais do que generalistas, breves, de um desenvolvimento não só conduzido (ao contrário de livre) como necessariamente conciso. Helena Vasconcelos faz afirmações demasiado assertivas, as quais que parecem dispensar argumentações, quando na verdade pedem por um desenvolvimento que não só tornasse clara a perspectiva da autora, como pedem pela consolidação, com o risco de virem a ser consideradas como meras boutades, cultas, sem dúvida, bem marejadas e seguras das leituras, igualmente, mas não menos inconsequentes pela sua apresentação sumária.

Há momentos da escrita de Seth Lerer que exasperam o leitor, julgo. Alguns destes aspectos já haviam sido notados por outros críticos deste livro, como a mania constante de Lerer em asseverar uma ideia sua como incontornável, através de construções frásicas como: “Como é que não se pode notar que…?” (“How can one not…?”). O único benefício da dúvida é tratarem-se de perguntas (mesmo que, como reza o ditado, retóricas), às quais é sempre possível o leitor responder com um não argumentativo, e que leve ao desenvolvimento das razões dessa recusa. A escrita de Vasconcelos não exaspera ninguém, tem uma fluidez dupla de factos indiscutíveis (“O autor nasceu a….”) e de uma conversa directa, mas a ausência dessa tomada de posição de dúvida, de auto-questionamento, implica que as afirmações nos surgem como doutorais, não o sendo. Não há qualquer momento de rasgo, de súbita intuição, de brava concatenação de ideias. E, se Helena Vasconcelos apresenta no fim do livro uma bibliografia sumária, e vai citando outros livros, alguns deles indiscutivelmente académicos, no corpo do texto, é porque deseja tornar clara a existência dessas outras discussões contínuas, dessas reinterpretações e reavaliações. Mas é precisamente por elas existirem que a autora poderia (não nos atreveremos a idiotice do “deveria”) expandir essas ideias, ou provocar crises e novas questões. O tom assertivo mantém-se, mas em nada ajuda. Apenas a título de exemplo, entre vários possíveis, é tomar o que Nabokov escreveu sobre Carroll como indiscutível, e não colocar em cheque o entendimento (pobre, míope) do escritor russo sobre o autor de Alice.

Como vimos, ambos os títulos incorrem em anedotas pessoais, reminiscências da infância dos autores, experiências e observações com os seus leitores privilegiados (filho, netas). Mas se no caso do académico norte-americano essas pequenas notas servem para abrir a um discurso de maior especulação, de cariz mais poético (ou até poiético, brincando com trocadilhos que bebem dos títulos dos livros discutidos, das situações comparáveis das suas tramas, dos pontos de aproximação das personagens, facto também já referido), no caso da investigadora portuguesa revestem-se quase de uma espécie de corolário de autoridade, de confirmação terminal de uma percepção ou impressão, transformada em ideia que se deseja apresentar como producente na leitura das obras.

A comparação entre estas duas obras é, muito provavelmente, inábil, uma vez que se trata de dois livros de natureza muito diversa, cujos objectivos não coincidem senão no tema geral. Mas não existem ideias em geral, apenas ideias, concretas e limitadas pelo escopo a que elas próprias se propõem. E se o livro de Lerer, não obstante as suas titubeações e incursões pela especulação mais poética, atinge os objectivos a que se propôs, providenciando um quadro geral e sucessivas lições do território que delineou, o de Vasconcelos acaba por demonstrar que o seu território permanece desconhecido precisamente por não ter sido sequer contornado por uma linha, mas apenas contornado no seu tratamento.

Pedro Vieira de Moura

3 comments

  1. Tive esperança de que fosse só no meu computador (o que, às vezes, acontece). Acho que o problema foi ter feito copy/paste a partir do e-mail, mas a minha ignorância informática não me permite ter a certeza. De facto, se toda a gente vê o mesmo que eu, ficou minúsculo. Vou ver o que consigo fazer.

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