Philippe Claudel, O Relatório de Brodeck, Edições Asa

brodeck

Se retirarmos a qualquer guerra o seu contexto, sobra-nos o essencial: morte e sangue, claro, mas sobretudo a queda abissal dos valores e gestos a que costumamos chamar humanidade. Sobra-nos, como escreveu Italo Calvino, “esse passar de mão em mão de coisas cada vez mais amolgadas”, mesmo quando essas coisas não são corpos ou objectos.

Numa aldeia montanhosa geograficamente indefinida, Brodeck é persuadido pelos outros homens locais a escrever um relatório sobre o homicídio de um homem, por eles cometido, de modo a torná-lo justificável. O que lemos não é exactamente esse relatório, mas uma história paralela, que revelará quem é Brodeck, como regressou de um campo de concentração e, mais importante, como foi lá parar. E revelará também o processo que conduziu ao homicídio daquele homem, que mais não fez do que expor, desenhando-os, os instintos dos aldeãos. Recorrendo a parábolas e alegorias, Claudel desenvolve uma reflexão sobre o medo e a culpa que não deixa nenhuma personagem, nem o próprio narrador, imune às responsabilidades e que usa as referências da Segunda Guerra unicamente como eco, apenas implícito, um modo exemplar de chegar ao essencial. E o essencial, a descida da humanidade a um patamar onde só o medo existe e cresce, atravessa de modo magistral a narrativa de Brodeck, para depois entregar ao leitor (arrasado) a única miragem que impede a queda total: a esperança.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Time Out, nº106, Out. 09)

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