Leituras na porta ao lado

No outro poiso regular, dedicado à banda desenhada e à ilustração, escrevo sobre Greetings From Cartoonia, uma edição da Stripburger com a participação de doze autores de vários países europeus, entre eles o português Filipe Abranches. Para ler aqui, ou já a seguir.

As edições especiais da Stripburger têm-se revelado objectos essenciais no traçar de um mapa europeu da banda desenhada. À semelhança do alcance que a própria revista tem construído, convidando autores de diferentes latitudes, dando-lhes as condições para desenvolverem o seu trabalho e criando um espécie de cartografia onde os pontos orientadores incluem a inovação, a reflexão sobre a banda desenhada ou os modos mais produtivos de lhe rebentar com os dogmas, as edições especiais têm-se destacado pelos mesmos motivos que foram criando a aura quase lendária que a revista eslovena tem hoje, mas acrescentados de uma unidade maior, um sentido que ultrapassa a mera reunião de autores e se encaminha (alcançando-a plenamente) para a obra, para o gesto novo e capaz de se firmar com as raízes bem sólidas numa outra cartografia, mais ampla, alargada a outros eixos, obras e autores.

Greetings From Cartoonia, a mais recente edição especial da Stripburger, reúne onze bandas desenhadas, assinadas por autores de sete países europeus (Eslovénia, Roménia, Itália, Portugal, Finlândia, Polónia e Noruega). Esta referência não serve apenas de descrição do conteúdo do livro, mas antes inicia a sua leitura efectiva a partir do programa que Matjaz Brulc apresenta na introdução. Cartoonia apresenta-se como um pais imaginário, mas não no sentido sonhador e utópico de algumas obras em busca da felicidade por meio da evasão; antes um território de conflito e diálogo, experimentação e reflexão, topograficamente organizado em função da relação estreita e interdependente entre o texto e a imagem. As narrativas que o apresentam constroem-se a partir de um leitmotiv constituído por objectos assumidamente típicos de um determinado país, mitos, ideias feitas ou paisagens características.

Uma primeira digressão pelas narrativas que compõem Greetings From Cartoonia e a atenção ao programa que se apresenta na sua introdução revelam a multiplicidade como teia unificadora deste projecto. Não há contradição. É a partir da diversidade que se criam as narrativas, e essa diversidade não se reflecte apenas no ponto de partida (a utilização ‘obrigatória’ de diferentes objectos e motivos em cada história), mas igualmente na visão que se estabelece a partir desses objectos, mas sobretudo a partir dos múltiplos referentes que a eles correspondem, uma visão quase cacofónica de um espaço que é Cartoonia ecoando uma certa Europa. Mesmo quando um ou mais dos elementos escolhidos estão intrinsecamente ligados a uma determinada cultura, como a figura do Proteus esloveno, no trabalho de Andrea Bruno, ou o Dacia, carro romeno, no de Matej Lavrencic, a sua promiscuidade narrativa com cenários ou situações inesperadas, ou a leitura que personagens fora do contexto de cada um desses elementos deles fazem, permitem visionar um espaço, não apenas territorial, mas sobretudo cultural, no sentido mais amplo do termo, que se revela uma manta de retalhos, uma sobreposição de muitas camadas, cruzando tradicional e contemporâneo sem nenhuma espécie de choque.

Esta convocação do múltiplo para um mesmo espaço e tempo, uma convocação que não resulta da visão multicultural que as revistas de tendências vendem semanalmente, mas antes de uma consciência aguda das relações entre as coisas (relações por vezes com séculos de existência, outras derivadas de uma constatação sobre os objectos e o seu uso quotidiano) e da impossibilidade de tudo abarcar, listar, sistematizar (convivendo essa impossibilidade com a ânsia de, precisamente, procurar um sistema por entre o caos, mesmo que a única aproximação possível a esse sistema seja o acto de relacionar quase tudo de um modo mais ou menos organizado), remetem para um dos tópicos que Italo Calvino explanou nas suas Seis Propostas Para o Próximo Milénio (edição portuguesa da Teorema), precisamente o da multiplicidade, uma característica que Calvino percebia na literatura do século XX e que acreditava ser um elemento com potencial para se manter e desenvolver no novo milénio a que o autor não pôde chegar. A ideia de uma espécie de enciclopédia infinita e inconclusiva, conscientemente infinita e inconclusiva, apresenta-se no ensaio de Calvino com recurso a vários exemplos (O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil, Bouvard e Pécuchet, de Gustave Flaubert, ou A Montanha Mágica, de Thomas Mann) e creio que não será abusivo confirmar os seus ecos na leitura deste Greetings From Cartoonia. A ideia de rede, subjacente a todos os exemplos que Calvino chama à colação, concretiza-se sob a forma de um sistema infinito e em crescente mutação, com cada ‘ramo’ produzindo ramificações constantes, interligando tudo sob a aparente ordem das taxonomias, mas na verdade percebendo que qualquer univocidade nas ligações estabelecidas será pouco menos que fugaz e unicamente devedora da condição humana, logo mortal (e o aceno com uma Dança Macabra na capa do volume é revelador disso mesmo). Por vezes, esta aguda consciência do múltiplo afirma-se pelo medo, no cruzamento de superstições com uma falhada modernidade no modo de as encarar, como na história de Gasper Rus; outras vezes, reflecte-se na passagem do tempo, como na bela narrativa de Filipe Abranches, a encerrar o volume. Mas talvez a melhor das imagens para ilustrar essa percepção seja a do mapa que inicia a história de Jakob Klemencic, uma tentativa de grafar organizadamente uma porção do mundo e a posterior revelação da impossibilidade da tarefa, quando as boas indicações da topografia conduzem, afinal, à insegurança de espaços inesperados. Como diz Calvino no referido ensaio, “ao contrário da literatura medieval que tinha a tendência para obras que exprimissem a integração do ser humano numa ordem e numa forma de compacidade estável, como a Divina Commedia, em que convergem uma riqueza linguística multiforme e a aplicação de um pensamento sistemático e unitário, os livros modernos que mais amamos nascem da confluência e do choque de uma multiplicidade de métodos interpretativos, modos de pensar e estilos de expressão. Mesmo quando o projecto geral foi minuciosamente concebido, o que conta não é o seu encerrar-se numa figura harmoniosa, mas sim a força centrífuga que dele se liberta, a pluralidade das linguagens como garantia de uma verdade não parcial.” (pg.138, na edição de 1994). Tal é a substância de Greetings From Cartoonia, e ainda que Calvino pensasse sobretudo na literatura do século passado, as suas palavras são igualmente certeiras perante a mais recente edição da Stripburger.

Nota: Greetings From Cartoonia pode ser adquirido através do site da Stripburger ou, mais facilmente, através da CCC.

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