Visitas no Cadeirão

Nova visita do Pedro Moura, desta vez a propósito do livro de Dave Eggers, O Sítio das Coisas Selvagens (Quetzal), e aproveitando a estreia recente do filme homónimo. Aqui fica o texto:

A magia da melancolia e a melancolia da magia.

Para os leitores de certas peças literárias, achados e objectos não-identificados da McSweeney’s, é possível que haja uma surpresa pela leveza, e até mesmo candidez, com que Eggers cumpre este romancear do seu próprio argumento para Where the Wild Things Are, filme de Spike Jonze que por sua vez é uma adaptação do clássico livro ilustrado do mesmo nome de Maurice Sendak. De um livro ilustrado de uma dezena de páginas, com um texto lacónico e imagens que vão ocupando cada vez mais espaço no plano de composição do livro, espelhando e auscultando a “fuga” da personagem principal, Max (uma fuga que não poderemos jamais decidir se é onírica ou real, já que para as crianças essa distinção não faz sentido, e apenas a vivência total das sensações é pasto da existência), a um filme de mais de uma hora, com todos os outros ingredientes técnicos, narrativos e estéticos que implica, há uma distância substancial que permite fazer surgir elementos como os da “novela interior” das personagens, espaço para a expressão de todas, um papel reequilibrado das relações estabelecidas, a exploração dos espaços de acção enquanto significativos em si mesmos, e não somente como paisagens de passagem. O romance, por sua vez, permite que se sublinhem essas mesmas dimensões de um outro modo, mais pausado, com inflexões cadenciadas, ainda que não se explorem a maleabilidade  e o vigor da própria língua. A própria tradução do romance (que a proximidade do filme veio acelerar e permitir), tropeça num ou noutro momento, sobretudo nos diálogos, em expressões mais vivas e coloquiais, deixando ver a estrutura original do inglês, mas segue com precisão a aproximação inteligente, reflectida e sem os truques histriónicos típicos de muita da ficção contemporânea para jovens leitores, exacerbando de novo os princípios de uma leitura de “fuga” sem a recompensa merecida. Na verdade, encontramos aqui uma fuga, a de Max, mas para uma descoberta melancólica do valor da existência humana, e a dificuldade que todos sofremos ao crescer e, no fundo, a viver.

Presumo que a leitura deste romance possa ser feita em total autonomia em relação quer ao filme quer ao livro de Sendak, mas tratando-se de um exercício de reescrita, de resposta e elaboração sobre uma matéria já anteriormente calcada e experimentada, e até mesmo pelo interesse pessoal, a que aqui se persegue é feita na continuidade precisamente da leitura desses outros textos, feita noutro local. Estas notas breves que se seguem são uma extensão delas.

Há uma anedota curiosa. Um canibal diz que come um homem não porque não goste dele, mas precisamente porque gosta dele. É esse o movimento precisamente que leva a que os adultos, na sua ânsia de protecção máxima dos seus rebentos ou dos bebés que lhes serão mais próximos, sintam, mesmo que numa raia de fantasia, a “vontade de os comer”. É essa a imagem deixada pelos temíveis primos e tios velhos de Sendak que lhe imprimiram, em criança, a ideia que se viria a expressar nas “coisas selvagens” do livro. Os monstros terríveis da família são transformados em verdadeiros monstros de peles coriáceas, com escamas, penas ou muitos pêlos, dentes e olhos grandiosos e tenebrosos, vozeirões de susto. E que habitam sempre um espaço que, ainda que seja familiar quando lá se aporta, não é o espaço de onde se partira, e não é um espaço onde se possa estar para sempre.

A fuga de Max para a ilha das coisas selvagens é desencadeada por uma breve e modelar novela familiar, quase melodramática, da mãe que vive sozinha e se desdobra para o sustento dos seus filhos. A figura do pai está totalmente ausente quer no livro de Sendak quer no filme, até mesmo como referência, mas Eggers coloca essa figura como uma espécie de sombra que está sempre no canto do olho e da atenção de Max. É como se tudo o que Max fizesse, ainda que na ausência do pai, fosse feito em busca da aprovação dele. Todas as acções, todas as memórias, todos os ensejos são elaborados em torno dessa mesma figura. Até mesmo a fuga através do lago, e depois do mar, e depois do tempo, é feita em direcção ao pai. Só que o grande desvio colocá-lo-á na tal ilha.

A ilha, deserta ou habitada pelo grande Outro, é um recurso relativamente repetente na literatura, senão infantil, pelo menos naquela que foi pelo público infantil resgatada e tornada sua (conforme a lição de Seth Lerer). Uma ponta dessa linha pode ser encontrada em Homero, ou Crusoe; outra, na série Lost. A ilha serve como que de espaço para a propriopercepção e para a percepção dos outros, em que ambas se corrigem mutuamente, ou se iluminam uma à outra. Max parte do seu mundo suburbano e melodramático para uma pequena epopeia, em que a relação dele com os grandes monstros se revestirá de uma natureza quase alegórica em torno da sua própria vida, talvez mesmo do seu passado.

Quando Max chega à ilha, os bichos já se encontram num qualquer processo de destruição. Se bem que seja apenas Carol, o mais brutal dos monstros, aquele que destrói o que aparenta ser as suas casas-ninhos, nenhum dos outros se opõe verdadeiramente a essa acção, e é somente quando Max o ajuda, irrompendo na esfera de visibilidade dos monstros, surpreendendo-os, que eles parecem adaptar-se à sua presença, colocando-se do lado de fora da raiva de Carol. A tensão entre os habitantes originais da ilha manter-se-á sempre, e Max, ao tornar-se rei (mas que parece mais cumprir o papel de um rei sacrificial, e não um papel de superioridade sobre aquela pequena sociedade), assumirá o papel de agente de coesão desse tecido social. O fito de Max passa a ser essa mesma coesão, e os esforços que ele procura realizar através da parada da algazarra (a sua primeira ordem), dos jogos, das tarefas que distribui, e até mesmo da “guerra” que declara, concorrem para isso. Esta guerra, que atinge de quando em vez contornos mais violentos do que no filme – pela utilização de munições vivas na forma de bicharocos pequenos, das certeiras bolas de terra das cabeças uns dos outros, das dores sentidas após os sopapos dados –, é um comentário pouco disfarçado mas não menos eficaz, e até elegante, para descrever a economia da parvoeira infantil dos bichos, e o modo como Max se entrosa nela, por partilhar já dela. Aliás, os diálogos são muitas vezes pouco elaborados, e servem mais para demonstrar a aproximação titubeante de um rapazinho de menos de 10 anos, e a dos monstros de uma idade mais antiga, talvez, mas próxima da atitude de Max, em relação à comunicação verbal, menos eficiente do que fazer uma bola de neve que percorre uma curva no ar antes de se estatelar nas costas do adversário, do que uma marcha com os pés a bater forte no chão na esperança de provocar tremores em toda a terra, do que os urros bestiais com que se podem tricotar os pores-do-sol de todos os dias quando felizes.

Neste livro também se tornam mais claros os jogos de passe-passe a responsabilidade do bem-estar na ilha, como se não houvesse realmente um governo central dos monstros, e isso lhes servisse tanto para a liberdade em que vivem como para a angústia que parecem experimentar reiteradamente. A hierarquia que se pressente entre as personagens tem o seu papel nesse tecido, mas é como se fosse uma hierarquia que apenas existe para poder sofrer alterações e abalos. Alexander, aqui, parece-me ser de facto a figura do rei preterido, mas totalmente, tanto mesmo que nem sequer foi alvo dos sacrifícios que os reis dos monstros parecem conhecer (os restos mortais, ossos e cinzas, nos quais se guarda a coroa). Como se os reis sofressem o amor dos monstros até à última consequência possível. Só que, no caso de Max, o acto de o “comerem” não é no fundo procurado seriamente. Há, contudo, pequenas aproximações.

Carol, por sua vez, parece mesmo encaixar-se na perfeição no papel do pai ausente, ou melhor, das razões da ausência do pai, violência nunca dita mas sempre pressagiada, instigando em Max um terror que se expressa de imediato antes mesmo do cumprimento do acto. Quando os “barulhos” sob o solo ocorrem, porque será apenas Carol quem os escuta? Tratar-se-ão de uma espécie de desvio das atenções a que os “pais” recorrem quando querem fazer esquecer o que eles cumprem mal? Será uma forma de demonstrar o seu poder de conhecimento, percepção e, portanto, de decisão diferente e superior dos demais? Quando Max resolver partilhar uma lição de ciências naturais com Carol, e lhe descreve a longínqua, vindoura morte do sol, o monstro selvagem recusa-se a aceitar esse facto, depois angustia-se profundamente, o que o leva a um outro ataque violento, e finalmente à falta de fé no saber de Max, quando o sol retorna. É um exercício de poder, sem dúvida. O momento máximo desse poder, e terror, é defendido por Max quando se esconde na bocarra de Katherine, uma outra forma de canibalismo, mais benévolo, e típico das “mães”, sobretudo as galinhas…
A um dado momento, outra das personagens, Alexander, revela que Max é um “rapaz que finge ser um lobo que finge ser um rei” (no filme, é Douglas quem o faz, num contexto diferente, e com consequências imediatas diferentes). Este sucessivo encaixe de fingimentos é mal-visto por Alexander, claro, pois Max é mesmo um lobo, coisa selvagem, e é mesmo um rei. A razão pessoal da personagem talvez se deva aos ciúmes que ele sente em relação a Max, seguindo uma interpretação defendida por alguns autores de que Alexander teria sido o último, igualmente preterido, monarca das coisas selvagens. Mas naquele lugar, selvagem, em que a própria natureza parece seguir outras naturezas que não a da natureza conhecida, vive-se num espaço antes dos jogos da linguagem, antes das imposições e papéis sociais, vive-se a literalidade. Se bem que todos o soubessem, que todos desconfiassem, todos fingiam aceitar isso, todos aceitavam “reinar” a isso. Ao dizê-lo, Alexander quebra a potência mágica e fundadora da linguagem, e Max deixa efectivamente de ser uma coisa e outra. A magia cessa, apenas uma nova fuga, um retorno, se impõe, à casa materna. Não é o pai, não é o lugar do pai, aquele que o receberia mesmo. Quando Max volta a casa, a lição foi grande, temível e transformadora. Mas o que mais aprendeu é o que está à sua frente: “Ficou debruçado sobre a mãe durante algum tempo, conhecendo-a agora, a sério que quase a conhecendo agora”. O sítio das coisas selvagens parece-se tanto como um livro que trata de coisas sérias a brincar, como um que abraça as coisas de brincar de um modo sério. É um desdobramento perfeito do livro de Sendak, uma inflexão minimamente diferenciada do filme, um reequilíbrio dos dois elementos-chave que compõe todo este mundo, e que se encontram no título deste texto.

Pedro Moura

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