Coisas para resgatar à vida efémera dos jornais

A crónica de Alexandra Lucas Coelho, no ‘Viagens Com Bolso’, no Público de ontem:

Todas as grandes catástrofes são nossas. Os mortos a arder por causa do cheiro e da doença somos nós. Os vivos que vagueiam entre as ruínas e o lixo somos nós. A perda, a dor, a fome, o saque, somos nós. No Haiti, somos nós. Onde a natureza esmaga os homens, cada um vê a natureza da própria morte. Podemos e devemos discutir se eles estavam preparados e se nós estamos a reagir (não estavam, não estamos). Podemos e devemos discutir se nós estamos preparados e vamos reagir (estamos?, sabemos como?). É o que podemos e devemos fazer.

Mas o vento volta a soprar, as águas voltam a erguer-se, a terra volta a tremer, e de cada vez somos nós, no Haiti, na Jamaica, em Tóquio, Karachi, Angra do Heroísmo ou Lisboa, porque podíamos ser nós. Não temos nenhum homem a quem atribuir a origem deste mal, ninguém a quem gritar, ninguém para combater, ninguém de quem possamos ser diferentes – esse alívio. E um buraco negro primordial abre-se sobre as nossas vidas, expondo o fútil, o irrelevante, o vazio. Não há história, o tempo é circular como no tempo dos mitos. Somos os primeiros homens, à mercê.

Nenhuma guerra nos deixa assim. A guerra é totalmente humana. Divide-nos, pede-nos que participemos ou tomemos partido, dá-nos álibis, gente a quem culpar.

Há exactamente um ano, em Gaza, também se procuravam corpos debaixo do entulho, e havia aquele cheiro adocicado a carne queimada. Durante dias, essa guerra abriu as notícias pelo mundo, e depois a notícia foi ficando cada vez mais pequena, mais para dentro, mais para baixo, até desaparecer dos alinhamentos internacionais.

Um anos depois, leio pela enésima vez que o Hamas está disposto a aceitar um Estado palestiniano nas fronteiras anteriores a 1967. Entretanto, a guerra continuou e continua em surdina. As ruínas, os mortos, o cerco, o círculo. Não é notícia porque é notícia há 60 anos.

A natureza não estica o corpo, não estende as pernas nem estala os dedos, não respira nem arfa todos os dias de uma forma perceptível. Os seus movimentos demoram milhares de anos e esmagam-nos em segundos. Tudo o que há a fazer é prepararmo-nos o melhor possível, preparar as casas, a cabeça e a resposta. Mas o que fazemos todos os dias uns aos outros, em nome da pátria, da história ou de um deus, é sempre e só responsabilidade humana.

Somos todos nós no Haiti, como em Nova Orleães ou no Sri Lanka porque esse mal não é humano. Estamos todos separados na guerra, e esquecemos, porque não é possível olhar a nossa própria morte todos os dias de todo o nosso tempo de vida.

Nas catástrofes vemos no rosto dos outros o nosso próprio rosto, e isso é o melhor do que somos, do que podemos ser. Depois, aquilo que fazemos uns aos outros para sobreviver à catástrofe pode ser o melhor e pode ser o pior.

Alexandra Lucas Coelho, in Público, 22 Jan. 2010 (viagenscombolso@gmail.com)

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