Correntes d’Escritas 2010: Quarta mesa

“Literatura: o esforço inédito da palavra”. Foi para discutir este tema que se juntaram J.J. Armas Marcelo, Luís Naves, Manuel da Silva Ramos, Pablo Ramos e Paulo Kellerman, moderados por Inês Pedrosa. Manuel da Silva Ramos, com um capacete amerelo de operário e uma lanterna presa à cabeça, leu um texto sobre o trabalho na mina, que rapidamente se revelou ser sobre o trabalho da escrita. E descrevendo o seu ofício de mineiro, o autor falou do “corredor da emoção, cheio de material inerte e inédito”, do “corredor da poesia bruta”, das sextas-feiras escavando na “galeria que muitos chamam de política, mas que eu prefiro chamar de justiça na comunidade (…) onde já me aconteceu estar a escavar e aparecer um cano de espingarda na matéria informe”, do “trabalho no corredor da língua, na companhia do prospector alentejano Alface”, do “prospector James Joyce, trabalhando oito horas por dia na mina, do “corredor erudito, perigoso para os prospectores” e de Alberto Manguel, “que consegue perceber em que ponto da mina vai cada prospector”. Resumir as palavras de Manuel da Silva Ramos não serve; queremos ver o texto publicado, quem sabe numa próxima revista das Correntes.

Pablo Ramos, que fala português apesar de dizer que tem pouco vocabulário, contou que começou a escrever graças a um fracasso. O seu avô,de origem galega, era um músico de renome na Argentina e ofereceu-lhe uma guitarra quando o autor tinha oito anos, inscrevendo-o nas aulas particulares de um professor muito famoso, mas com enorme mau feitio. Como Pablo Ramos trabalhava numa oficina de automóveis (quem ler A Origem da Tristeza vai reconhecer o tema), as suas mãos, para além de pequenas, estavam muito danificadas e o professor decretou que ele nunca poderia tocar guitarra. Nessa altura, o autor começou a escreverum diário onde descrevia a sua vida exactamente ao contrário do que ela era, com uma família rica, um talento nato para a música e a promessa do próprio Perón o enviar para Espanha para aperfeiçoar a sua técnica musical. E concluiu assim: “A literatura não é o esforço da palavra inédita, é o esforço do ser humano que vê o mundo fracassar e não tem outro remédio que não seja criar os seus próprios contextos.”

Com J.J. Armas Marcelo, as gargalhadas tomaram conta do auditório municipal. Entre as várias histórias que contou, destacou-se o famoso episódio de Camilo José Cela no Senado, a propósito das pessoas que frequentemente adormecem nas conferências e nos encontros literários (normalmente, na assistência, mas nem sempre). Sendo senador, Cela estava sentado na sua cadeira, numa sessão plenária, e adormeceu. Foi acordado por um outro senador, professor de latim, que lhe disse “Señor Cela, está usted dormiendo?” E Cela, despertando, respondeu: “No, estoy dormido”. E o professor: “Es lo mismo.” E Cela: “No. No es lo mismo estar jodiendo y estar jodido”. Como se percebe, não há tema, por mais rebuscado que seja, que impeça as conversas de irem para onde menos se espera. E é isso que faz as Correntes.

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