Correntes d’Escritas 2010: Sem fala possível

Apesar de algumas pessoas acreditarem que todos os escritores, jornalistas e críticos se conhecem (para além de, às vezes, acreditarem que todos partilham cabalas literárias em secretas reuniões), são amigos e jantam com frequência em casa uns dos outros, e apesar de momentos como as Correntes serem espaços privilegiados para os encontros, para além dos reencontros, a verdade é que continuo a ter algum pudor de me apresentar a um escritor se não tiver um motivo profissional (uma entrevista, por exemplo). É uma atitude tonta, talvez, mas não imagino porque haveria de incomodar alguém só para dizer como me chamo e o que faço. Por outro lado, há escritores que gostava de conhecer, não por motivos profissionais, mas porque o que escrevem me diz muito. E também aí o pudor se impõe, quase sempre. De que servirá a um escritor que eu lhe diga que o que ele ou ela escreve me diz muito, me lança dúvidas ou inquietações? Vem isto tudo a propósito de Héctor Abad Faciolince, que está na Póvoa pela segunda vez consecutiva. Nunca tive coragem de dirigir-lhe mais do que um aceno cordial e de circunstância, à beira da mesa do pequeno almoço ou num relance entre o elevador e o átrio do hotel. E neste caso, não é apenas pudor, é mesmo total incapacidade de falar. Depois de ter lido, há um ano, Somos o Esquecimento que Seremos (Quetzal), não consigo olhar para Héctor Abad Faciolince sem que os olhos se me encham de lágrimas e sem que tenha para partilhar mais do que um silêncio (talvez eloquente, mas apenas para mim). Será lamechas (para além de indiciar perturbações sociais de que não sabia sofrer), mas é exactamente o que sucede. E aproxima-se do ridículo, não apenas pela mais que certa regra de não confundir a obra com o autor, como pelo facto de este autor em particular ter um olhar franco e fama de bom conversador. Agora que se reedita Receitas de Amor Para Mulheres Tristes (igualmente na Quetzal), pensei em entrevistá-lo. Mas é de Somos o Esquecimento que Seremos que não me consigo desligar. E temo não conseguir perguntar-lhe nada, por ser tanto o que passei a transportar comigo desde essa leitura. Pelo menos, nenhum dos sítios onde colaboro me encomendou tal entrevista, que acabaria por se publicar aqui no blog. E os leitores do blog que me desculpem, mas acho que me sinto grata pela ausência dessa encomenda.

Anúncios

5 comments

  1. Percebo perfeitamente a admiração, o bloqueio e a “afasia” súbita perante alguém cujo trabalho muito se admira. Ainda assim, se eventualmente mudar de ideias quanto à necessidade de “encomenda”, tal entrevista seria muito bem-vinda 🙂 Já agora, continuação de bom trabalho.

  2. O “Somos o Esquecimento que Seremos” é muito bonito. E este teu post também. Compreendo bem esse pudor, mas de vez em quando há que lhe dar uma sapatada. Tenho pena que a autora do blogue não tenha pedido a si própria uma pequena entrevista ao Hector Faciolince.

  3. Talvez numa próxima oportunidade. Há que aprender a dominar os sentimentos arrebatados, de vez em quando. Desta vez, não foi possível.

  4. Não foi por falta de insistência… eu adorava ler/ouvir uma conversa entre os dois. (Desculpem lá a demora no comentário, tinha lido o post na altura, mas agora, ao “repescá-lo” é que reparei no que aqui se dizia.)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s