Coisas para resgatar à vida efémera dos jornais II

Miguel Esteves Cardoso escreveu sobre a destruição de livros feita pela Leya e usou as palavras todas.

O Ultraje

No PÚBLICO de anteontem, Luís Fernandes, da Universidade do Porto, ironizou sobre a transformação em pasta de papel, pelo grupo Leya, “de dezenas de milhares de livros de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura, publicados pela ASA”.

Sempre quis comprar um dos livros destruídos: a antologia de poesia e prosa que Eugénio de Andrade fez e a ASA editou, com o nome maravilhoso e verdadeiro deDaqui houve nome Portugal. Era um livro bonito, grande, muito bem impresso e encadernado, sob a chancela da Oiro do Dia. Li-o na biblioteca de universidades inglesas mas, para vergonha minha (como já o tinha lido, num prenúncio dos malefícios da Internet), nunca o comprei; apesar de achar que, sendo caro, era barato para o que era. O papel era bom. A selecção era boa. Era um livro perfeito – e até hoje não o tenho.

Tenho ligações sentimentais ao grupo Leya (por causa d”O Independente) e ainda esta semana recebi uma proposta simpática e tentadora da Dom Quixote, que agora faz parte da Leya. Mas que posso fazer quando uma grande editora, recém-formada e sem qualquer tradição literária, transforma um livro que era caro de mais para eu comprar em pasta de papel? É de vomitar. Não podemos dar dinheiro a quem só pensa em dinheiro. José Saramago – mau escritor mas boa pessoa, na minha miserável opinião – foi enganado. Eugénio de Andrade e Jorge de Sena – um grande poeta e um génio – foram ultrajados.

Desejo sinceramente que a Leya se foda.

(MEC, Público, 04 Março 2010)

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11 comments

  1. Concordo com tudo o que diz o MEC neste texto, excepto com a observação que faz sobre José Saramago. Se é boa pessoa, não sei. Mau escritor não é de certeza.

  2. …lembrei-m…d quem destrói alimentos (só pq sobraram,ao fim d dia)qd podia mt bem doá-los a instituições próximas…q agradeceriam obviamente…
    …qd por mim sugestionados a fazê-lo…”cria hábitos
    … n é bom pro negócio…dá trabalho”…blablabla
    …queimar livros…insanidade…

  3. Não sei se o JS escreve mal mas garanto que o que escreve se lê bem. E goste-se ou não do estilo, é minuciosamente lógico no que imagina (Ensaio sobre a Cegueira) e hilariantemente subtil no seu descreve (Evangelho sobre JC).

    Já MEC arrasou tudo na Causa das Coisas. É o livro dos livros.

    Mas também devia falar com a sua editora, a Assírio e Alvim, para que não responda torto (“está esgotado, já disse”) a quem procura os seus livros, sob pena de os leitores começarem a fotocopiar e fazerem circular “edições próprias”. É que estas coisas sabem-se e depois é uma chatice.

  4. Depois de ter sido notificado telefonicamente a seguir à atribuição do Prémio Leya 2008 de que tinha sido um dos oito finalistas, com o interesse na publicação do meu romance a concurso “O Quinto Império do Mundo”. Depois de passar um ano e meio, sempre com promessas de que ia sair, com indicação e tudo da editora a “Oceanos”; depois de ver que nunca houve a frontalidade e a correcção de me ser apresentado um contrato escrito, desconfiei de toda esta gente.
    Sou um principiante mas não dependo deste tipo de pessoas e de empresas para nada.
    Afinal, pensando bem, se fizeram isto com estes autores, de que estava eu à espera?
    Bem haja Miguel pela frontalidade, a esta hora há muita gente de bem a fazer coro consigo.

    Carlos Maduro

  5. Concordo com tudo o que MEC escreveu. Excepto em relação ao Saramago. Não o acho boa pessoa e trata-se de um escritor a viver dos juros de excelentes investimentos do passado, Memorial do Convento, A Jangada de Pedra, O Ano da Morte de Ricardo Reis.

  6. Nem sei se ainda vale a pena comentar algumas coisas neste País.Ainda se quixam que o Povo Portugues não tem hábitos de leitura!Sempre tive pelos livros o maior respeito, Gosto de ler, gosto muito, e possivelmente aos 56 anos, com 47 anos de trabalho feito, mas cedo para ser reformada, um livro é uma boa companhia.. Há bibliotecas que não são ricas e agradeceria, esses livros que infelizmente a maioria não pode compar(entre os quais me incluo).Isso é crime, como é crime derrubar sobreiros, destruir património.Livros são Património, mas há quem não respeite o seu, como pode respeitar o Património alheio?Fica a pergunta!

  7. Grande MEC! Não há explicação para o que a Leya fez, é vergonhoso. Será que ninguém lhes disse que até podiam ter feito uma feira e podiam-se ter dado ao luxo de vender os livros a 5€ que os tiham vendido todos de certeza. Para além de não gostarem de livros, também não são muito inteligentes (nem generosos, já que podiam ter doado os livros a bibliotecas, escolas, centros de investigação, etc.)

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