Visitas no Cadeirão

A Andreia, que esteve no início deste Cadeirão, regressa agora para uma visita a propósito de Um Toldo Vermelho, de Joaquim Manuel Magalhães, editado pela Relógio d’Água:

UM TOLDO VERMELHO, A REESCRITA DO REAL

Apesar da reiterada ‘Morte do Autor’, que legitima o texto desde Barthes, a reescrita da sua obra, pelo poeta Joaquim Manuel Magalhães, levantou questões teóricas geralmente arredadas da crítica de poesia.
Se por um lado o autor não pode matar a obra publicada, que existe em bibliotecas, alfarrabistas e em casa de ilustres e anónimos leitores, se não pode apagar todo o trabalho crítico e analítico a que esta tem sido sujeita e que a legitima na sua identidade, é certo que pode, livremente e com toda a autoridade, rasurá-la, destruí-la, reescrevê-la.
O facto de o fazer provoca um inevitável estudo comparativo dos corpora, com um perigoso prejuízo da mais recente fixação.
Não é novo o trabalho de artífice do poeta na reescrita da sua poesia, que surge na edição de 2001 de Consequência do Lugar, na Relógio d’Água. Numa nota introdutória, Joaquim Manuel Magalhães distingue o que considera serem as três partes da sua obra e afirma que «É isto agora, e só isto, o que considero hoje os meus primeiros livros.» (p.7). Mais à frente, em conclusão e a propósito do motivo que orientou ‘Alguns Antecedentes Mitológicos’, o poeta acrescenta algo esclarecedor: «Estes assuntos são secundários para o leitor ideal, aquele que só quer ler e partir para o que é dele com essa leitura. De qualquer forma ficam estes limites para outros leitores, que procurarão o inútil: visionar o que eu acolho, reacolho ou despeço.» (p.8)
Se o leitor ideal é o leitor que lê numa relação com a sua experiência e não a partir de um contexto histórico-literário, então talvez o leitor ideal não precise de comparar o escrito e o reescrito, o passado e o ausente. Não necessariamente por desinteresse mas porque só no texto procure a sua razão de ser.
Se assim for, justifica-se que os novos poemas se afastem do concreto referencializado no tempo e no espaço, e que a subjectividade lírica apenas conceda pequenos fogachos ao depuramento elíptico da frase, onde há pouco lugar à adjectivação sensorial e muito ao nome.
O leitor ideal não seguirá o jogo de desvendamento, procurando a correspondência entre o novo poema e a sua origem, como se o último fosse um mero vestígio ou esqueleto do primeiro, sem o qual não seria legível.
Que leitura se propõe ao leitor ideal? Uma leitura que experimenta os limites da própria legibilidade, esticando a metonímia à perda do referente. Importante é o facto de se tratar de um processo metonímico e não metafórico ou simbólico (a metáfora existe, enquanto recurso, dentro da metonímia, enquanto processo): ainda existe real. Desfasado do canto desencantado, o real é brusco, enumerativo, fragmentado, desfigurado num expressionismo rígido em despojamento. Faz sentido?
Se a comunicabilidade que sustenta o regresso ao real se apaga, pode o real resistir registado? Ou está apenas na origem, no referente que a metonímia esgotou?
Já em 1991, num texto intitulado “Joaquim Manuel Magalhães, um novo realismo na poesia portuguesa”, António Ramos Rosa chama a atenção para a relação entre o identificável e o inacessível: «(…)Os valores locais são nitidamente delineados, o que não impede que o poeta nos convide a recuperar a opacidade originária do mundo. Esta acarreta sempre a iminência do inacessível e a inacessibilidade do desejável. (…) Assim a busca da plenitude e da unidade projectam-se nesta poesia simultaneamente como um impulso gerador e como uma impossibilidade. O poema procura ser fiel ao imediato (não à ordem estática e redutora, mas à realidade substancial, ruguese, de Rimbaud) mas o imediato é descontínuo e por mais que o poeta se submeta com uma honestidade escrupulosa às condições da revelação do real, o contacto deixa a certa altura de efectuar-se (…)» (in António Ramos Rosa, A Parede Azul, Estudos sobre poesia e artes plásticas, Caminho, 1991, pp. 129, 130)
Haverá então uma inequívoca ruptura poetológica? “Il faut être absolument moderne”: o regresso ao real não se construiu contra a modernidade, bem pelo contrário. E essa modernidade implica uma impossibilidade imanente que deriva da alteridade. Qualquer que seja a biografia, qualquer que seja a subjectividade, esta estará sempre órfã.
A reescrita, enquanto escrita no tempo, tende a redimensionar essa subjectividade, expropriando excessos semânticos e assomos líricos presos ao presente da escrita e não à origem ilegível. Os limites do sentido resultam da delapidação dos factos, da história, transformando-os por metonímia, em acontecimento poético, pela matéria semântica, pela orgânica física da crueza do ritmo, pela irónica elipse enunciativa do sujeito (que sempre se sente mas nem sempre se revela).
A repetição da escrita é diferença, mais do que desconstrução é um existir em devir em direcção à origem, que pode ser, porque não, o próprio real.
«Apenas o real.// Diferendo. Árduo impacto./ Drenagem vidente./ Atípico e controverso/ zarcão.// Superfície e miragem,/ passaporte.» (in Joaquim Manuel Magalhães, Um Toldo Vermelho, Relógio d’Água, 2010, p.67)
No novo corpus, os poemas não obedecem todos à mesma contenção. Nalguns reconhece-se mais facilmente a escrita anterior. Mas não serão a maioria.
Independentemente do choque hermenêutico, estabelecem-se dois níveis de análise: um dentro do contexto histórico-literário da obra escrita até agora pelo autor Joaquim Manuel Magalhães, que compara o livro com os conceitos e a tradição teórica que o antecedeu, conferindo-lhe a crítica um grau qualitativo; outro fora do contexto, relacionando apenas o texto com o texto e o enigma da sucessão de leitura e escrita, da sua intersecção, da ruptura, do vestígio e do apagamento.

Andreia Brites

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