Bibliotecas vivas por dentro

Depois da morte do autor e do fim da História, a morte do livro insinuou-se na fonte sensacionalista que alimenta as capas de jornais. Por cada aparelhómetro novo, uma certidão de óbito para os livros. E, vários aparelhómetros depois, os livros ainda por aqui andam, e o ritmo avassalador a que chegam novas espécies às livrarias não parece dar crédito aos coveiros do impresso. Mas a futurologia não costuma ser um exercício menos do que arriscado. Mais preocupante do que a morte dos livros perante o desfile de aparelhómetros é a relação que estabelecemos com os ditos aparelhómetros. E aqui, passa-se do risco da futurologia para o risco do ridículo. Paciência. Também as cartas de amor sofrem desse mal e já toda a gente sabe o que delas se disse em canónica letra de forma.

Evocar o contacto físico com as páginas impressas, o gesto de folhear, o cheiro a tinta nova ou a folha velha, tudo isso são coisas que entraram numa espécie de zona proibida no meio letrado, e quem delas se socorre para lamentar a hipótese do lento desaparecimento dos livros impressos leva com o rótulo de antiquado, nostálgico ou ridículo. Assim vai o mundo, há que ter paciência. Certo é que de gestos e rituais se fazem os crescimentos e as descobertas, e não creio que alguém que cresça a ler apenas em suporte digital estabeleça com a leitura a mesma relação que as gerações que o fizeram com papel encadernado entre mãos. Não discuto se é melhor ou pior, mas parece-me que não há muitas hipóteses de ser igual, sobretudo quando se observa que o importante na leitura digital é o admirável mundo da simultaneidade e do instantâneo (lê-se um parágrafo e salta-se para uma página da Internet, volta-se ao livro e passa-se para o trailer do filme respectivo), e não a concentração no texto único que se tem à frente.

O que assusta (o que me assusta a mim, mas vou manter o sujeito impessoal para parecer que assusta muita gente) quando pensamos sobre as mudanças de fundo que a leitura em suporte digital traz consigo não passa propriamente pelo formato ou pelas aplicações dos aparelhos, mas antes pelo modo como lemos. Aparentemente, tudo é semelhante: agarramos num objecto, olhamos para ele e deciframos as sequências de letras no ecrã. Uma diferença óbvia: com excepções muito concretas e limitadas, não podemos emprestar aquele livro a outra pessoa, a não ser que lhe emprestemos o aparelho. É uma ninharia? Não creio. Para além do nível pessoal, é importante recordar que as bibliotecas públicas emprestam livros gratuitamente (pelo menos por enquanto, pelo menos em Portugal). Como funcionará esse processo se só houver livros digitais? Obriga-se cada utente a ter o seu próprio aparelhómetro? E as bibliotecas, levarão elas a melhor sobre os vendedores de livros online, conquistando o direito de emprestarem livros? Não pode ser uma ninharia.

E a propriedade? Sem entrar em dialécticas, a ideia de uma biblioteca infinita à disposição de qualquer pessoa munida de um aparelhómetro pode ser bucólica e recheada de ecos borgesianos, mas será real? Saltando do ridículo para o apocalíptico, penso muitas vezes no que aconteceria se uma catástrofe marcial ou um conflito económico destruíssem o acesso aos servidores que alojam todas estas espécies virtuais. Esses servidores têm existência real e não são infalíveis, para além de precisarem de energia. Se algo falhar, para onde vai a biblioteca infinita? Claro que, se houver um incêndio, a minha biblioteca também arde, mas seria preciso um incêndio mundial para que todos os livros impressos ardessem, e aí também não devia sobrar ninguém para se lamentar… O que quero dizer é que, enquanto dominarmos as técnicas de feitura de um livro, asseguramos a preservação de milhares de conteúdos e a propagação de novos. E nem precisamos de energia, se ainda houver quem se lembre de como se compõe uma página com tipos de chumbo e se imprime numa máquina unicamente mecânica. (Eu, pelo sim pelo não, guardo um cavalete cheio de tipos e uma pequena máquina tipográfica, não vá o diabo ou a Google tecê-las, e pretendo continuar a aprender o ofício.) O quadro será exagerado, concedo, com algo de Fahrenheit 451 e uma teimosia em querer manter as lombadas à vista nas estantes, mas o entusiasmo frenético e incondicional em relação ao digital não deixa de me parecer um bocadinho irreflectido.

(Este foi o texto que escrevi para a edição especial da B: Mag, distribuída durante a última edição das Correntes d’Escritas – e publicado, entretanto, nos Blogtailors. O título é retirado de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.)

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