Sjón, A Raposa Azul, Cavalo de Ferro

Livrinhos singelos, no formato e no número de páginas, tendem a passar despercebidos no turbilhão de romances de capa dura e letras brilhantes que chegam diariamente às livrarias. Neste caso, vale a pena vasculhar, afastar potenciais concorrentes e alcançar A Raposa Azul. Por trás da aparência frágil de um livrinho, guarda-se um texto avassalador no que ao uso da linguagem diz respeito e capaz dos maiores fulgores estéticos com recurso a um mínimo de palavras.

Ambientada na Islândia rural do século XIX, a narrativa de Sjón cruza as histórias de Baldur Skuggason, o reverendo que parte à caça de uma raposa azul, e de Abba, uma rapariga com trissomia 21, dificilmente compreendida num meio social tão árido. Só o desenlace esclarecerá as relações entre ambos, mas os desenlaces, por si só, não costumam garantir a excelência das obras literárias. O modo como Sjón burila cada frase, debruçando a narrativa para os abismos da condição humana com uma secura tão cortante como as paisagens geladas que lhe servem de cenário e apresentando as personagens na solidão dolorosa que as caracteriza, apesar dos contactos pontuais que mantêm com outras pessoas, são a razão para resgatar este livrinho de entre o turbilhão, assegurando que não se perde a leitura de uma obra memorável. Na descrição da caça à raposa e no registo da conversa entre o animal e o reverendo está toda a história da humanidade.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Time Out, nº131. Mar-Abr. 2010)

Anúncios

One comment

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s