Feira do Livro de Lisboa: os ‘pequenos’ editores

Quem vai à Feira nem sempre se lembra, mas para que as editoras estejam no Parque, ocupando um ou mais pavilhões e vendendo os seus livros, é necessário que paguem uma inscrição cujo valor não é suportável para todas as casas. Imagino que tenha sido para contornar esse problema que surgiu a tenda dos pequenos editores, um espaço onde editoras com poucos meios podem, ainda assim, marcar presença na Feira. Suponho que de qualquer modo essa presença tenha alguns custos, mas são custos mais amigáveis para quem não tem dinheiro para os grandes investimentos. Até aqui, tudo bem. A estranheza começa com uma visita à tenda propriamente dita, e é uma estranheza que tem vindo a verificar-se ao longo dos anos. O conceito de ‘pequenos editores’ remete unicamente para os meios financeiros e o resultado disso é, para o leitor/visitante, algo desajustado; na tenda encontram-se, sem qualquer arrumação lógica, livros de ensaio da Vendaval lado a lado com livros de auto-ajuda de quinta categoria, poemas de António José Forte na vizinhança de resmas de manuais de actividades para crianças cheios de desenhos fluorescentes, edições da Abril em Maio acompanhadas de anedotas do Hérman, a revista Intervalo encostada a Cristos ressuscitados, ou que falam, ou que sangram enquanto revelam todos os mistérios esotéricos ao alcance dos vendilhões do Templo. O desequilíbrio é visível e merecia reflexão por parte dos organizadores da Feira e dos editores. Repare-se: a ideia de permitir às editoras com menos posses uma presença na Feira é louvável, não propriamente pelo gesto de generosidade, mas porque permite que os leitores não sejam privados de livros que, de outro modo, não chegariam à Feira. E também não se esperaria que houvesse uma espécie de censura que definisse que espécie de livros, dentro dos editados por estas editoras, teriam direito a essa presença (mesmo que os meus preconceitos relacionem pequenos editores com projectos meritórios e de grande qualidade que só são pequenos no tamanho, o que deixaria de lado os Cristos falantes e os desenhos fluorescentes, dando espaço apenas aos vendavais e a outros familiares). Não sei bem como se poderia corrigir a situação de um modo justo, mas creio que valeria a pena pensar no assunto. Para os leitores, faz tanto sentido esta mistura como chegar ao pavilhão da Cotovia e encontrar, por entre o catálogo da editora, manuais de auto-ajuda (e vice-versa: chegar ao pavilhão de uma editora de auto-ajuda e encontrar, por exemplo, o Guy Debord). A solução não pode passar pela censura, nem pelo privilégio da qualidade (a Feira não é uma livraria, mesmo que nem todas as editoras o saibam), mas tem de passar por uma arrumação que dê sentido aos percursos dos próprios leitores. Ter uma tenda com mesas onde se espalham livros com características tão abissalmente diferentes produz o mesmo efeito que as feiras instantâneas do metropolitano e acaba por não permitir que as várias identidades editoriais respirem como deviam. Talvez tenha sido por isso que a & etc, que marcava presença nesta tenda há uns anos, deixou de lá estar (mas quem quiser comprar os livros do seu catálogo na Feira, pode fazê-lo no pavilhão da Letra Livre). Não faz sentido.

4 comments

  1. «Não faz sentido». A questão do sentido! Como eu fico contente ao ver que alguém de entre a «gente dos livros» propõe o «sentido» como critério para discernir! Tanta coisa que não faz sentido no nosso Mundo dos Livros! Se souber de mais alguém de entre a «gente dos livros» que já tenha também adoptado o critério do «sentido», isto é, que saiba e queira equacionar os problemas, procurar soluções e determinar-se à acção com o devido respeito pela inteligência, diga-nos! Diga-nos!

  2. A &etc, além da Letra Livre, está também (tal como a Hiena), no pavilhão da Frenesi.
    Na Letra Livre está também (cito de memória) a Averno e a Vendaval.

  3. Alguns “pequenos editores” deixaram a tenda dos “pequenos editores” porque a grande distribuidora que faz a gerência dessa tenda não pagava as vendas, ou só pagava meses depois, aos “pequenos editores”. E os “pequenotes”, para desgraça, já lhes basta esta condição; não podem andar também com caloteiros às cavalitas.
    Quanto à mixórdia que ali se apresenta (e na feira em geral), não me parece muito diferente da mixórdia que é actualmente todo o mercado livreiro. Por culpa dos livreiros em geral, que recusam cultura para dar espaço às vendas de oportunidade, o lixo literário das margaridas peixoto, dos zés luíses pittas, dos fernandos amarais pintos e das ineses pirosas.
    Assim não pode haver espaço sequer para um Gil Vicente, um António Serrão de Crasto, um Cavaleiro de Oliveira, etc.
    Paulo da Costa Domingos

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