Lourenço Mutarelli e A Arte de Produzir Efeito Sem Causa

A Arte de Produzir Efeito Sem Causa (Quetzal) é o primeiro romance de Lourenço Mutarelli publicado em Portugal, autor brasileiro que tem repartido o seu trabalho entre a literatura e a banda desenhada. Durante o LeV (Literatura em Viagem), onde participou, Lourenço Mutarelli conversou com o Cadeirão Voltaire, e da manhã na esplanada solarenga do hotel Amadeos saiu esta entrevista.

(fotografia retirada do site da Quetzal)

É verdade que parou de fazer banda desenhada?
Sim. Eu queria parar para sempre, mas depois tive uma proposta muito boa em que comecei a trabalhar. Mas é uma história ilustrada, não é exactamente banda desenhada; é uma imagem por página, com tinta acrílica e cor… Acho que vai ser um trabalho interessante, mas eu não quero voltar à banda desenhada, por uma série de decepções… Por exemplo, soube por esses dias que o José Carlos Fernandes também quer parar, e ele é muito grande, o trabalho dele é maravilhoso. Tenho um amigo que tentou comprar há pouco tempo o volume seis de A Pior Banda do Mundo e parece que não se consegue encontrar.

Então, essa vontade de abandonar a banda desenhada não tem exactamente a ver com uma questão criativa, mas com outras questões.
Sim, tem a ver com isso… O meu primeiro romance mudou a minha vida e eu passei a ser tratado com respeito, coisa que, no Brasil, eu nunca fui. Dou um exemplo: fui duas vezes a uma dessas instituições culturais ligadas a bancos, no Brasil, e a primeira vez fui como quadrinhista e a segunda como escritor. O cachet do quadrinhista era trezentos reais e o do escritor era três mil e quinhentos. O hotel era melhor, o carro, tudo. Te tratam como adulto. E no Brasil eles acham que a banda desenhada é para crianças, e eu acho que até pela postura de muitos quadrinhistas brasileiros.

Bom, isso não é diferente em Portugal… Há uma visão muito redutora da banda desenhada.
É isso. O descaso é muito grande em toda a parte.

Apesar das duas linguagens, banda desenhada e prosa, e das diferenças óbvias entre elas, nota-se uma afinidade de temas, processos de pesquisa, formas e estruturas entre os dois campos do seu trabalho, e isso é muito claro neste A Arte de Produzir Efeito Sem Causa. Quando escreve, tem noção disso?
Sim, o processo é muito diferente, mas a matéria prima é a mesma, as inquietações também, e eu fico feliz de me reconhecer em tudo o que eu faço. Em nenhum momento eu quero fugir do que faço e sou; quero experimentar, mesmo mudando formas e técnicas.

O que é que o interessou nesta possibilidade de uma loucura progressiva que afecta a personagem principal? É um processo fértil, em termos literários?
É um processo que me persegue, até por vários parente e ancestrais que tive, é algo que tem a ver comigo, com coisas que eu vivi e que sempre me fascinam. Essa perda da identidade que é quase a morte, nesse caso, a morte em vida. Acho que a loucura é isso, você perder a tua identidade é morrer, de certa forma. Gosto muito de pegar histórias em que isso está prestes a acontecer com o personagem e acompanhar ele durante um percurso.

Isso permite desenvolver um processo que está muito próximo de uma investigação…
Exactamente. Tem muita pesquisa neste processo. E este livro partiu também de eu ter visto Naked Lunch, no cinema, sem que me dissesse nada. Eu tinha lido Burroughs na adolescência e não tinha entrado no texto. Aí, ganhei de um amigo um DVD com uma edição especial, que é citada no livro, e eu vi o filme e fiquei arrebatado. E pensei que tinha de mergulhar no universo do Burroughs, por isso comprei os livros dele através de um sebo alemão, na internet, e fiquei à espera que os envelopes fossem chegando para mergulhar naquele mundo.

Como no livro, em que o personagem recebe envelopes misteriosos…
Sim, isso mesmo. Fiquei totalmente intoxicado pelo Burroughs e pela ideia da palavra como um vírus. Tudo isso reverberou no meu mundo interno e é desse ponto que parte a história deste livro.

A ideia da linguagem como vírus é muito forte neste romance. Consegue conceber uma hipótese de loucura fora da linguagem?
A gente tem essa necessidade de expressão. O que mais me incomoda é quando ouço as pessoas que são guiadas pela novela, pela música da moda, pela roupa da moda… estão contaminadas, falam sempre a mesma coisa, os mesmos blocos de frases que não são delas, não têm nenhuma reflexão por detrás. É uma espécie de loucura colectiva, de anulação colectica, em que as pessoas não se conhecem e não reflectem sobre nada. Isso é muito perturbador.

Como uma máquina, à imagem das frases mecânicas que, no seu livro, descrevem operações das peças de um carro?
Exactamente. As pessoas entram nessa máquina e reproduzem tudo, e eu acho isso triste e assustador ao mesmo tempo. A questão não é eu considerar-me maior do que isso, mas acho que é importante preservar a sua identidade, a possibilidade de ver as coisas de um modo individual.

Esta ideia do ‘efeito perlocutivo’ provoca um choque entre cada vez mais palavras e cada vez menos comunicação por parte de Júnior, o personagem principal. O que é que tentou provar com isto?
Essa frase com que abre o livro, acho que parece não dizer nada e acaba por dizer tanto. Esta personagem tem uma percepção tão profunda do que está acontecendo, apesar de estar perdendo as referências, que o que ela diz acaba por vir de uma linguagem tão própria… Eu acho que quis seguir essa desestruturação para chegar na essência da própria desestrutura. E chegando nesse esvaziamento. Quando o personagem começa a falar dessa forma, eu acho que ele também está falando coisas muito precisas, apesar da confusão. Se a gente se desligar dos módulos de frases que ele constrói, aquilo é muito preciso. Eu tinha a ambição ‘secreta’, com este livro, de causar um pouco dessa sensação, mesmo sendo uma coisa muito pretensiosa… E nunca tive tanto retorno de pessoas próximas, que me ligavam e diziam que tinham ficado perturbadas. E eu queria conseguir isso durante a leitura.

Para além da linguagem, este é um romance que incide muito no tema da memória, o modo como nós construímos a memória. Como é que vê essa relação entre a linguagem, que não deixa de ser construída por nós, e a memória, que apesar da nossa ilusão, também o é?
Esse é um ponto fundamental para mim, a memória. Num determinado momento comecei a perceber que o que eu lembro não é a verdade. Só que aí eu comecei a ficar um pouco mais perturbado, porque eu acho que tem um delay do que eu vejo até isso chegar no meu cérebro; o que eu estou vendo agora já é uma lembrança. Então comecei a desconfiar de tudo, não só da memória, mas da própria realidade. Sempre tive uma certa dúvida em relação à realidade, mas a memória é muito ficcional… E cada vez tenho menos testemunhas, sobretudo desde que perdi o meu pai, que era uma testemunha muito importante da minha vida. A minha mãe tem pouca memória. E aí você vai ficando mais solitário e com menos certezas. Por sorte, eu tenho a minha mulher, que está comigo há dezanove anos, mas ela também não tem uma memória muito precisa e às vezes, sobre esse período, eu acho que tenho um certo poder de indução sobre a memória dela [risos].

E o próximo livro?
O próximo livro, que já está escrito e que vou lançar no Brasil esse ano, tem a ver com isso mesmo. É a história de um homem que vai viajar com a mulher a filha pequena, e eles somem. E um ano depois ele aparece, só ele, e não se lembra do que aconteceu. E não havendo respostas, eu acho que está tudo ali respondido. É um livro muito experimental, só feito com diálogos, quase como uma banda desenhada, só que como não há imagem, o leitor tem de criar as referências do espaço e do tempo. E foi uma experiência muito interessante, fazer esse livro. O meu sonho era fazer um livro minimalista, e acho que consegui. Cada leitor vai ter de perceber se o personagem se lembra e está omitindo, se está envolvido no desaparecimento…

É um livro para dar trabalho.
Sim, isso mesmo [risos].

E como se chama o livro?
Chama-se Nada me Faltará.

Esperemos que chegue cá.

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