Feira do Livro de Lisboa: esticar, esticar

Com a semana extra da Feira do Livro a chegar ao fim, começa a ser tempo de balanço. O das contas, há-de fazê-lo quem percebe de contas. Já o das opiniões que se manifestaram contra, e que pouco eco parecem ter tido na decisão da APEL, pode começar a ser feito. Sobre as razões que levaram a APEL a prolongar a Feira, não pode este blog dizer mais do que aquilo que foi divulgado nos comunicados e na comunicação social: a chuva de um certo fim de semana, a visita do Papa (que teria afastado gente da Feira, apesar de eu própria a ter visto cheia como poucas vezes durante a semana no dia em que o papamóvel cortava o trânsito em várias ruas da capital), o Benfica campeão… Quanto ao processo de decisão e à participação e sentido de voto dos associados da APEL, ainda espero resposta a um mail enviado ontem. Do ponto de vista dos frequentadores da Feira, não haverá muito a dizer. É lógico que quem gosta de subir e descer o Parque por entre as bancas de livros não se importa de poder fazê-lo durante mais uma semana, e por mim falo. Mas como dizia um editor, numa das noites da Feira, é preciso perceber que onde os livros se vendem é nas livrarias. Ou seja, aquilo que começou por ser um modo de escoar fundos e que entretanto se transformou numa livraria de novidades ao ar livre e com descontos acima do imaginável é um momento alto do ano editorial, mas não pode ser o ano editorial. Se a Feira esgotar a venda de livros durante muito tempo (afastando os leitores das livrarias durante o tempo que a antecede, durante o tempo que dura e durante o tempo que se segue, que é o que, naturalmente, costuma acontecer), o esforço de recuperação das livrarias pode não conseguir suportar a queda das vendas. Resultados: muitas livrarias não farão encomendas durante os meses que se seguem à Feira, outras não terão capacidade imediata para repor stocks, e algumas correrão, mesmo, o risco de fechar portas (e isto não é um exagero, ainda por cima em tempos de crise). E aquilo que pode ter sido muito vantajoso para as editoras, que venderam livros com descontos acima da média, ainda por cima durante mais uma semana relativamente ao que era habitual para este período (e aqui impõe-se a pergunta: a Lei do Preço Fixo permite vendas com descontos desta ordem durante tantos dias seguidos?), pode deixar de o ser quando quiserem colocar as novidades de Junho e Julho nas livrarias e só conseguirem fazê-lo nas grandes superfícies livreiras. Talvez isso não incomode a maioria das editoras, sobretudo as de grande dimensão. Certo é que muitas editoras se manifestaram contrárias ao prolongamento da Feira durante mais uma semana (entre elas a Assírio & Alvim e a Antígona, que eu tenha conhecimento directo), e que alguns livreiros (sócios da APEL? consultados perante a proposta de prolongamento?) o fizeram igualmente. Aqui ficam os links para os textos que fui apanhando sobre o tema (e onde importa ler igualmente os comentários), e que bem podiam ser, juntamente com mais opiniões, favoráveis ou contrárias, matéria para reflexão sobre o ‘mercado do livro’ que estamos a alimentar: Pó dos Livros, Culsete e Trama. É possível que outros se acrescentem entretanto.

(E já se acrescentam: o editor da Frenesi tem uma opinião diferente e publica-a aqui).

5 comments

  1. Mesmo esticada, a Feira do Livro de Lisboa não ultrapassou o número de dias (25) em que toda e qualquer entidade (com ou sem fins lucrativos, empresarial ou associativa) pode beneficiar das excepções à lei do preço fixo. E essas excepções são apenas e tão-só a permissão para fazer descontos entre 10% e 20% na venda de livros com menos de 18 meses.

    A verdade é que, se lhe apetecesse, a APEL podia prolongar a Feira do Livro de Lisboa por 365,25 dias (a APEL como outra qualquer organização representativa do sector editorial e/ou livreiro).

    Mas as diferenças acabam aqui: no caso das «novidades», toda a gente pode fazer descontos até 10% o ano todo, e até 20% 25 dias por ano; no caso dos livros com mais de 18 meses, toda a gente pode fazer o desconto que muito bem lhe apetecer (salvo os limites do bom senso).

    A questão é saber porque é que as livrarias e etc. não usam a prerrogativa dos 25 dias — perdendo margem, mas não vendas.

    Mas é também saber como é que a APEL permite descontos superiores a 20% em novidades nas suas feiras (ou fecha os olhos, ou não repara).

  2. Sara, amiga das Livrarias Independentes:
    este seu post e mais uma que outra esfregadela de olhos de quem vai acordando para a ingente questão dos atávicos contrangimentos da expansão do livro, das livrarias e da leitura em Portugal é que me anima a repetir até perder por completo a voz já fraca: «isto não fica assim»!
    Vou reler e tentar fazer uma enumeração das questões de fundo que o seu texto levanta, quer explicíta quer implicitamente. Vou tentar! Vamos a ver quando, como e onde.
    Obrigado!
    MM

  3. Sobre o link ao post da Frenesi, a Pó dos livros gostaria de esclarecer que até hoje não recebeu qualquer comentário por parte do Senhor Paulo da Costa Domingos. Não é, de todo, nossa regra não publicar opiniões divergentes da nossa.

  4. Note-se que a feira do livro de lisboa é tornada possível com licenciamento e financiamento da CML. Qual a opinião desta entidade pública? E porquê?

    Note-se também que editoras como a Bertrand e a Leya desistiram de se fazer distribuir em livrarias independentes, lutando por encontrar distribuidores próprios. Aqui na Loja de História Natural aguardamos por resposta das duas há mais de 2 meses.

    Mas os livros não são artigos quaisquer. Nos EUA as livrarias independentes, devidamente associadas, processaram as editoras e ganharam, obrigando a regras iguais no acesso aos livros.

    Em Portugal, as editoras vendem na feira do livro com 50% de desconto, aceitam fornecer a nova Buccholz com 45% de desconto (por exemplo e pelo que chega aos ouvidos), mas insistem em fornecer a 30% ou 25% livrarias independentes. Isto mesmo se o volume de negócios for equivalente. Esta é uma clara manipulação do mercado.

    Como as livrarias exercem um claro serviço público (há dúvidas?), não chegam leis a tentar regular preços de venda. São imperativas leis a regular preços de distribuição.

    Onde anda a Autoridade da Concorrência? Onde está o legislador?

    Isto é uma autêntica palhaçada à lusitana. Com a APEL como líder de banda.

    Infelizmente a LI – Livreiros Independentes não arrancou em força.

    Pedro Lérias

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