Entrelinhas II

Torcer (e gritar, e sofrer) por uma equipa de futebol não é uma coisa racional ou pré-determinada, ainda que muitos fãs (e alguns fanáticos) o queiram fazer crer. Sobre a irracionalidade, não creio que haja muito a dizer. Já sobre o determinismo, há algumas ideias-feitas: torce-se pela equipa do pai ou da mãe, ou de outro familiar influente, torce-se pela selecção do país onde nascemos ou, concede-se, pela do país onde vivemos há muitos anos. Esse determinismo é regra, mas eu gosto de excepções. Na família, a única devoção futebolística de coração era a do meu avô, sócio do Belenenses desde sempre, com lugar cativo e diploma honorário. E isso, claro, faz-me simpatizar com o Belém, mas não é só isso; se o Belenenses fosse como o Benfica em termos de tamanho, número de sócios e tempo de antena, é quase certo que eu odiaria o Belenenses. Logo, o determinismo é só uma pequena parte da história. A minha genealogia futebolística ainda regista a preferência da minha avó pelo Futebol Clube do Porto e a da minha mãe pelo Sporting. Em nenhum dos casos fui influenciada. E se me perguntarem porque torço pelo Leixões antes de qualquer outra equipa, não sei se sei responder, mas suspeito que as raízes no Porto e a associação aos pescadores de Matosinhos têm algum peso. O essencial é isto, parece-me: as escolhas futebolísticas também se fazem através de certos imaginários, afectivos, políticos e da memória, mesmo que para tal se ignorem várias outras coisas. Eu sei que o Leixões não coloca em campo jogadores-pescadores cheios de histórias do mar e de lutas por melhores condições de trabalho e de vida, e sim jogadores profissionais, tal como qualquer outro clube, que jogam no Leixões mas que poderiam jogar em qualquer parte. E é aqui que entra o irracional.

Há dez anos, eu vivia em Santiago de Compostela e o clube da capital galega estava na segunda divisão. Nos bares, a fotografia da equipa alimentava um ânimo do passado, muito galego, ao que parece, mas o certo é que o orgulho na formação da casa não esmorecera, apesar dos maus resultados. E no final dessa época, 1999-2000, confirmei, em pleno olho do furacão, que o futebol é muito mais do que 22 pares de pernas correndo atrás de uma bola: o Deportivo da Corunha vencia a final da liga espanhola, num jogo contra o Español, e o orgulho na equipa galega deixava de lado a velha rivalidade entre Vigo e Corunha ou o apoio quase de resistência à formação compostelana, saindo à rua para celebrar uma vitória da Galiza sobre o espanholismo de um clube que remonta ao franquismo, muito mais do que do Deportivo sobre o Español. Pela televisão, e com uma emoção que nenhuma das minhas barreiras de racionalidade deixou conter, vi adeptos galegos retirando pedaços do relvado para levarem para casa como quem guarda um bocadinho de história. Era apenas uma final de um campeonato de futebol e era tudo menos uma final de um campeonato de futebol. Os ecos de todas as palavras de ordem que ouvi, nos meses anteriores, nas várias manifestações que enchiam as ruas galegas a um ritmo verdadeiramente surpreendente (entre protestos motivados pelas políticas linguísticas, estudantis ou da pesca, houve de tudo, e sempre em galego) ganharam fôlegos de revolução. Era como se a seguir à vitória do Deportivo, a Galiza caminhasse sem barreiras para a autonomia completa, para o direito à sua língua própria, para um paraíso que toda a gente sabia impossível mas que, naquela noite, era a realidade. Quando fui à janela, percebi que se festejava tudo isso como se tivesse mesmo acontecido uma revolução e, rendida, deixando de lado a racionalidade que sempre me fez gostar de futebol sem ceder a festejos incontidos, juntei-me à multidão de bandeiras galegas (e portuguesas, juro, coisa que, para ser bem explicada, ocuparia ainda mais linhas do que este textinho sobre a bola, pelo que o deixarei para outra oportunidade) e celebrei a vitória do Depor como se sempre tivesse sido a minha equipa. Naquele dia, era mesmo.

E com tudo isto, não costumo torcer por Portugal. Não tenho nenhuma espécie de ódio à selecção portuguesa; a minha falta de entusiasmo é mais simples: o facto de ter nascido em Portugal não me faz sentir devota de tudo o que é português. Se a selecção nacional jogar contra a Espanha, torço por Portugal, e não é pelo peso da História, mas antes por causa do meu preconceito anti-Espanhol (mas frente à Galiza, à Catalunha e ao País Basco, e não frente a Portugal, e nem sequer em absoluto, porque gosto muito de Espanha). Já os 7 a 0 que Portugal deu à Coreia do Norte fizeram-me vibrar tanto como se a selecção Galega se tornasse oficial e ganhasse um Mundial. São coisas difíceis de sistematizar. Torço pelos Camarões porque simpatizei com a equipa na primeira vez que a vi jogar, em 1990, e porque gostava muito que uma equipa africana ganhasse o Mundial, razão porque também torço pela Nigéria e pelo Gana. Torço pela África do Sul porque houve Mandela e a luta contra o Apartheid. Torço pelo Chile por causa de um livro de García Marquez que me tirou o sono durante muitas noites, La Aventura de Miguel Littin, Clandestino en Chile. Torço pela Argentina por causa das Mães da Praça de Maio, e por causa dos que lutaram pelo fim da ditadura, e por causa de Maradona e do peso que o Mundial de 86 tem no meu imaginário, e sobretudo porque gosto muito de futebol e não há muitas equipas que se atirem para o campo com aquela devoção. E isto de idealizar equipas, colando-lhes a nossa mitologia pessoal mesmo sabendo que quase nada têm a ver com ela, é tão racional como torcer pelo Benfica ou pelo Sporting só porque alguém se lembrou de nos tornar sócios ainda antes de nos trocar a primeira fralda.

(vídeo do canal desportivo TyC Sports)

4 comments

  1. Onde é que está o botão de “gosto”? (espera, isto não é o facebook. Nesse caso, belo texto. Só não gostei daquela referência ao Glorioso: “Se o Belenenses fosse como o Benfica em termos de tamanho, número de sócios e tempo de antena, é quase certo que eu odiaria o Belenenses.”
    No dia em que assistires a um jogo na Luz com o estádio completamente cheio e, importante, no meio do Povo (não os energúmenos que por andam lá), tenho a certeza que mudarás de simpatias.
    E viva o Leixões 😉

  2. Obrigada.
    Quanto ao Benfica, não creio que uma ida à Luz me fizesse mudar de opinião, mas como gosto mesmo de futebol, não desdenharia ver um jogo lá, sobretudo tendo a garantia de não me aproximar de nenhuma claque (do Benfica ou outra, entenda-se).

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