A Improvável Cama de Bond

Foi no cinema que James Bond se transformou em ícone, mas o processo começou com os livros de Ian Fleming, largamente devedores da sua experiência militar e estratégica ao serviço da coroa britânica. Em plena Guerra Fria, uma figura como a de Bond concentrou todas as ilusões sobre a grandeza dos ‘bons’, com um perfil tão britânico que não oferecia dúvidas. A colecção que a Contraponto agora edita recupera três volumes já conhecidos (Casino Royale, Dr. No e Vive e Deixa Morrer) e acrescenta um inédito, Quantum of Solace, que reúne histórias curtas com o agente 007.

Mas a novidade não se fica pelo inédito e salta à vista ainda antes de se chegar ao texto. O design da colecção, importado das edições que a Penguin lançou em 2008, no centenário do autor, inclui ilustrações de capa de Michael Gillette, artista com portefólio extenso na área da publicidade. As mulheres desenhadas por Gillette, numa nudez que esconde mais do que revela, confirmam o peso icónico dos filmes das décadas de 60 e 70, mais do que dos livros, anteriores. O próprio ilustrador, em entrevista ao site mi6.co.uk, confirmou as directrizes para a colecção: nudez discreta (ou seja, sem revelar partes ‘sensíveis’) e um apelo visual aos ambientes cinematográficos, como forma de atrair para os livros os muitos seguidores dos filmes. O resultado, graficamente muito apelativo, deriva dessa relação dúbia que facilmente se estabelece com Bond e as Bond Girls; por um lado, os estereótipos denunciam-se ruidosamente, por outro, percebe-se a fulcralidade de personagens tão fúteis na economia narrativa de Fleming e no imaginário que criou para James Bond. É fácil não gostar, mas impossível imaginar o agente sem a sua quota irreal de seduções instantâneas.

A imagem sedutora e de homem irresistível para o sexo oposto ganhou dimensão de imaginário colectivo no cinema, e pode dizer-se, correndo o risco de contrariar preferências, que Sean Connery contribuiu decisivamente para tal. Mas nos livros falta o charme de Sean Connery, e a infalibilidade de Bond no que toca ao envolvimento com as mulheres revela todos os clichés que lhe deram origem. No volume de contos, e devido à brevidade das narrativas, a situação torna-se, por vezes, confrangedora: Bond diz meia dúzia de palavras em voz firme e convidativa e Bond Girl cai-lhe nos braços. Tudo sempre regado a champanhe e envolvido por quartos de hotel charmosos, ou então marcado pela imagem protectora do agente que, mesmo no meio do perigo mais avassalador, sabe como levar a sua donzela instantânea para os lençóis sem que nada de mal lhe aconteça.

Fora dos métodos de sedução do agente, os contos de Fleming revelam a sua capacidade de criar enredos prodigiosos, com mais espiões, armadilhas e criminosos por frase do que um parecer da Procuradoria Geral da República portuguesa, tanto como uma certa propensão para a divagação em torno da condição humana, esta última quase sempre aniquilada (mas em grande estilo, não fosse Fleming um aristocrata inglês) pelas características tão pouco humanas de Bond. No entanto, é óbvio que algo se perde com a brevidade. As descrições de peripécias físicas, a contextualização dos dossiers que levam Bond a várias partes do mundo e sobretudo o encadeamento de cenas onde o suspense domina o tom respiram melhor nos textos longos, o que faz de Quantum of Solace uma pálida sombra dos rebuscados episódios que fizeram de 007 um herói (mesmo que exagerado).

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, Abr. 2010)

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