O Circo Como Lugar-Comum (à conversa com David Toscana)

Em Monterrey, no México, a água é um bem escasso, tal como nos dois livros de David Toscana editados na colecção Ovelha Negra, da Oficina do Livro. Quer em O Último Leitor, quer em Santa Maria do Circo, a aridez da terra e a escassez de vida florescente definem as atitudes das personagens, colocando-as perante situações onde os vícios e virtudes da condição humana cobram os seus dividendos. O autor confirma o potencial do tema da falta de água, tão característico da sua Monterrey natal, enquanto terreno fértil para a literatura, pelo menos aquela que lhe interessa desenvolver, mais preocupada com o olhar sobre os tais vícios e virtudes intemporais do que com a pretensão de reflectir sobre a sociedade do presente.

Em Santa Maria do Circo, um grupo de artistas descobre-se sem esperança nem companhia, num lugar ermo e sem público. Estava a conversar com outros escritores e alguém disse que no México não havia romances ambientados no circo. E eu decidi: vou escrever um. E foi uma decisão espontânea, mas quando pensei nela com mais calma percebi que não era uma má ideia. O circo tem sempre este lugar-comum de funcionar como alegoria de outra coisa. Há um romance de José Donoso de que gosto muito, Casa de Campo, e eu queria um mundo assim, em que as personagens estivessem isoladas do resto da sociedade. E assim passei da ideia do circo para a ideia de um circo num lugar abandonado, isolado do espaço e do tempo. De um momento para o outro, a vida de circo que todos começam a desprezar parece possível de substituir por outra coisa, abrindo espaço para um ensaio sobre o modo como o ser humano assume os papéis que lhe vão surgindo ao longo da vida. A narrativa transforma-se, assim, em laboratório social, no momento em que, fixados numa aldeia abandonada, os artistas circenses decidem sortear as novas funções que desempenharão, anotando-as em papéis que cada um tira de um chapéu. Tratava-se de questionar o porquê de assumirmos os papéis que assumimos. Não há muita diferença entre sacar os papéis do chapéu, como no romance, e agarrar num jornal para escolher um emprego. A maioria das pessoas que encontramos pela rua, provavelmente não escolheu o emprego que tem. Ou seja, a maioria dos papéis que assumimos são tão resultado do acaso como os das personagens que tiram os papéis do chapéu. E quando os assumimos, levamo-los quase sempre a sério. O modo como apresento isso no romance pode parecer algo grotesco, mas visto com atenção, não é tanto assim. Com Hércules, o homem-forte da companhia, transformado em prostituta, a mulher barbuda em médica e o anão em padre, percebe-se o potencial de investigação que o romance assume. Tirando a prostituta, que teria de calhar a Hércules, os outros papéis existiram realmente: eu escrevi mesmo as funções em papéis e tirei-as à sorte para cada uma das personagens. Quis fazer uma novela onde o acaso fosse relevante e não tinha planos prévios. Quis respeitar as regras do acaso e ver o que eu próprio faria com elas.

Se Santa Maria do Circo nasceu de uma quase teimosia, O Último Leitor terá nascido da vontade de descobrir como seria a localidade de Icamole se por lá existisse uma biblioteca. E essa questão coloca Toscana na pequena porção optimista da humanidade, aquela que ainda acredita que os livros podem mudar o mundo. Por experiência própria, sei que os livros mudam as pessoas e as sociedades. Quase todas as religiões se baseiam em livros, e em livros com forte componente literária. Por outro lado, o facto de haver países, grupos políticos ou religiosos que proíbem determinados livros confirma o seu potencial de transformação. E para isso é preciso que os livros cheguem aos leitores, claro, porque um livro, por si só, não pode mudar, nem fazer, nada. Ainda assim, Toscana não assume este optimismo como uma causa, nem a literatura como um modo de intervenção social, mesmo que boa parte da sua obra tenha sido alvo de interpretações a partir da realidade mexicana que o autor tão bem conhece. Penso as minhas personagens em termos de condição humana, independentemente das interpretações e das analogias que daí nasçam. E a verdade é que os temas que o mundo contemporâneo parece oferecer à literatura como novidades são temas que sempre existiram – a violência, a corrupção… Não partilho daquela ideia de que todos os escritores latino-americanos têm de ter um compromisso social. Eu não o tenho como escritor, nem quero tê-lo.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na revista Ler, Jun.2010)

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