Rui Manuel Amaral, Doutor Avalanche, Angelus Novus

Quem leu Caravana, o anterior livro do autor, não será surpreendido por este Doutor Avalanche: o mesmo registo, universos muito próximos e o mesmo domínio de uma forma, o microconto, que reduz o verbo ao essencial. A surpresa dispensa-se quando a eficácia se cumpre e este novo volume de Rui Manuel Amaral é um reincidente nesse campo. Curtíssimas ficções alimentadas por personagens dos quais pouco sabemos, mas cujas taras, vícios ou rotinas ficamos a conhecer com apenas uma frase. O homem que declama poesia num café e leva uma tareia, a mulher cujo pescoço serve de túmulo a um mosquito com ecos de romance alemão, o míope que recupera a visão, perdendo a felicidade, todas personagens que se vislumbram num momento breve, uma espécie de buraco da fechadura onde uma narrativa ínfima deixa acessíveis momentos escolhidos de uma existência que se adivinha tão monótona quanto paranóica. A brevidade dos textos esconde o desafio maior deste livro, o de atribuir a cada narrativa os seus momentos passados (e às vezes os futuros), e a cada personagem o contexto que lhe falta. Ou, em alternativa, o de experimentar o mundo sem rede, apenas ritmo e fugacidade.

Nas últimas páginas, um bónus: o livro reclama para o papel a tão falada interactividade, ao desafiar o leitor a escrever as suas próprias micro-ficções em páginas com cada vez menos linhas. Afinal, não é só o digital que é bestial.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Time Out, nº164, Nov. 2010)

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